Vela

Ventos fracos? Saiba como aproveitar a situação ao máximo

por Administrador
Postado em 05 de Julho de 2017

Velejar com ventos fracos pode ser frustrante, mas aprenda aqui como aproveitar a situação ao máximo

Dinghies ou Lasers, catamarãs ou veleiros de cruzeiro, Optimist ou Super Maxis com quilhas pivotantes. Não importa com que veleiro participamos de regatas, uma coisa não muda: velejar com vento fraco de popa pode ser um pé nas partes baixas. É sempre um tédio, normalmente bem abafado e tudo acontece muito devagar. E, para melhorar, parece que é nessas horas que Mr. Lancheiro resolve passar na nossa proa, com os manetes em baixo. Quem está comigo, levanta a mão. Imaginei…

Mas é verão e as longas pernas com vento a favor são inevitáveis. E é justamente nessa situação frustrante para todos que temos a oportunidade de ganhar espaço sobre os concorrentes. Vamos apresentar aqui alguns conceitos básicos para velejar bem com ventos fracos pela popa, assim na próxima regata poderão fazer bonito. Vamos focar em estratégia e velocidade nesse artigo. 

Veleje sob pressão
Parece óbvio, mas não importa em que tipo de barco velejamos, a prioridade número 1 tem de ser estar onde o vento está mais intenso. Com ventos fracos, é ainda mais importante. E aqui vai o porquê: se estiver velejando em um dia com ventos de 12 nós, uma rajada de 13,5 nós representa uma brisa 12% maior. Mas, se estiver lidando com ventos de apenas 6 nós, o mesmo aumento de 1,5 nó significa um incremento de 25% na velocidade do vento. Quando estiver velejando em ventos fracos, há muito potencial nessas rajadas. A dica é: aproveite ao máximo qualquer brisa adicional.

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Numa regata, a melhor hora para avaliar as rajadas na perna com vento a
favor é durante a perna de offset. (Foto: Pedro Banlian)

Como estamos velejando na mesma direção do vento, uma rajada acompanha o barco por muito mais tempo do que ocorreria no contravento.

Quando velejamos uma regata em barcos da America’s Cup em ventos fracos (menos de 12 nós), sempre içamos um olheiro para o topo do mastro para analisar a raia. A visão da raia de 30m de altura, às vezes, é bastante esclarecedora e vale o esforço de elevar esse peso para o topo do mastro. Até em uma perna de contravento. Pode ser que em seu barco isso não seja possível. Mas ficar em pé, sempre é. Portanto, sempre que possível fique o mais alto que puder para reavaliar as zonas de presão desse ponto de vista.

A melhor hora para analisar as rajadas na raia é antes de iniciar a perna com vento de popa. Uma das inovações de que mais gostei nos percursos de regata foi a introdução da spare buoy ao lado da boia de barlavento. Ao montar essa boia, iniciamos uma curta perna de través, que chamarei de perna offset. Nesse momento aproveito para avaliar a raia e planejar por onde é melhor passar em direção à boia de sotavento. Se já estiver com um plano montado, a perna offset me dá o tempo necessário para confirmar ou alterá-lo, se necessário. Houve um lado da raia que foi melhor no contravento? Se assim foi, é esse lado que vou escolher na empopada.

Em regatas como as da Acura Key West Race Week, onde competem várias classes na mesma raia, gosto de monitorar o que acontece nas outras classes. Em que lado da raia estão com mais vento?

Uma vez identificados os pontos onde há maior pressão, o macete está em velejar por lá. Certamente isso é mais fácil de falar do que fazer. As rajadas estão em movimento e você, obviamente, também. Em empopadas com ventos fracos, a maioria dos barcos estará velejando com vento aparente entre 75 e 90 graus. O que significa que a maioria das linhas de pressão estarão à sua frente e não atrás, como acontece quando os ventos estão mais fortes. Preste atenção na biruta da ponta do mastro. É o melhor equipamento para identificar as próximas rajadas. Quando compito com um Farr 40 em ventos fracos, normalmente fico em pé a sotavento, pouco à frente do timoneiro. É de lá que, através dos estais de barlavento, fico à espreita de novas rajadas. Se a brisa aumentar, com consequente aumento do ângulo do vento aparente, a linha de visão se desloca para trás. É muito importante identificar de onde vem o seu vento aparente e tentar “catar” o maior número e as mais fortes rajadas no seu rumo.

A perna de alheta
Antes de montar a boia de barlavento, procure lembrar para que lado ficava a perna mais longa do contravento. Quando estiver velejando com vento a favor, será nessa direção o bordo mais longo, pois ele levará o veleiro mais próximo à boia de sotavento. Por exemplo, se no contravento o barco passou mais tempo num bordo de boreste, é muito provável que com vento de alheta ele passe mais tempo em um bordo de bombordo. Por conseguinte, a sua melhor aposta é dar um jaibe para bombordo, ao passar pela marca de barlavento. Claro que fatores como tráfego e vento mais limpo ou sujo também têm de ser considerados, mas isso veremos na próxima edição.

Observe também as outras classes. Os líderes das respectivas flotilhas vieram da esquerda ou da direita? Normalmente as melhores rajadas estão do lado de onde os veleiros estão mais concentrados.

Se estiver em dúvida, o mais importante é procurar as rajadas. Se o vento aumentar, a prioridade pode mudar para qual o melhor ângulo em relação ao vento. Portanto, quando os ventos estão muito fracos, quem manda são as rajadas.

Cuidado com o meio
O senso comum diz que, em percursos Barla-Sota, velejar pelos flancos é arriscado e ir pelo meio é mais seguro. Do meio da raia traçar uma estratégia mais conservadora para ter maior capacidade de reação às mudanças do vento (tanto na ida quanto na volta) é mais fácil.

Com ventos fracos, como estamos mais concentrados em caçar as rajadas do que com a procura do rumo mais eficiente, a melhor estratégia é fazer o contrário. As novas linhas de pressão normalmente virão de um dos lados da raia e muitas vezes o centro acaba ficando apenas com as sobras.

Não estou sugerindo que toda a vez que for competir com ventos entre 6 e 8 nós, se plantar nos cantos da raia seja a estratégia absolutamente vencedora. Mas, com pouco vento, se puder ir avançando pelos flancos, sem perder contato com a maioria da flotilha, estará se colocando em uma excelente posição. Nos flancos vai receber as rajadas antes de todos, e se estiver na perna longa de alheta, pode concluir o percurso sem realizar muitas manobras.

Mantenha a velocidade
Assim como ocorre com a velocidade do vento, em uma perna de alheta com ventos fracos, a velocidade do barco também pode aumentar de forma exponencial. Um décimo de nó pode ser um incremento percentual importante quando está velejando a apenas 3 nós e se tornar uma boa vantagem se a mantiver durante toda a perna. Ficar atento para velejar sempre nas zonas com a maior pressão de vento possível é muito importante, mas a dica a seguir pode ajudar bastante também: se estiver em dúvida, acelere.

Provavelmente o pau do spinnacker já deve estar batendo no estai de proa, pois é o melhor ajuste para ventos fracos e ângulos de vento aparente menores. Se estiver em dúvida sobre qual o melhor rumo a seguir, compare com os outros veleiros de sua flotilha. Se a dúvida persistir, prefira errar para o lado em que possa desenvolver maior velocidade ao invés do lado em que ganhe mais água.

Outro erro muito comum é manter a ponta do pau de spinnacker elevada. Se estiver em dúvida, mantenha a ponta mais baixa. Em geral, essa posição ajuda ao veleiro acelerar nas rajadas e manter o balão inflado com condições de mar adversas.

Comunique-se. O trimmer deve falar com o timoneiro, informando sobre as mudanças de presão no balão. Em nossos barcos peço que não usem frases com “orce 5 graus” ou “arribe 5 graus”, pois podem levar o timoneiro ao erro. Prefiro que se estabeleçam limites, tipo “a pressão está boa, não orce mais do que isso” ou “não arribe mais do que 140 (graus de vento real)”. Em um barco maior, equipado com instrumentos indicadores de vento, é uma boa ideia combinar antes um espectro de ângulos para o vento real e assim manter o barco velejando no ângulo ideal. Lembre-se que essa indicação do ângulo do vento real muda nas rajadas e de acordo com o balão que estiver usando, mas sempre é um bom começo para a comunicação.

Considere também que instrumentos de indicação de vento nem sempre funcionam bem com ventos fracos, seja por calibragem, inércia, sujeira ou outros fatores que influenciam em seu desempenho. Ou seja, nessa hora todo cuidado com eles é pouco.

Outra forma interessante de encarar ventos fracos pela popa, se você tiver bons instrumentos a bordo, é usar a inclinação (ângulo de rolagem) como parâmetro. Pense na inclinação do barco, como indicativo da potência fornecidas pelas velas.

A maioria dos veleiros de regata modernos tem melhor desempenho estando com leve inclinação, o que reduz a área molhada do casco e mantém o balão mais inflado, com a ajuda da força da gravidade. Cada barco é um caso, mas sugiro que anote o ângulo de inclinação do seu quando estiver sentindo que ele está numa empopada campeã. Dessa forma, poderá criar uma faixa de ângulos de inclinação que será o objetivo para toda a temporada (entre 4 graus e 7 graus, por exemplo). Isso ajuda muito a manter um padrão durante a temporada, mesmo que ocorram mudanças na tripulação.

Preserve sua velocidade, fazendo os ajustes de direção de forma suave e gradual. Se acelerar bastante durante uma rajada, não destrua a velocidade fazendo uma curva brusca ao final. Faça a mesma mudança de direção, levando de 10 a 15 segundos. Você quer evitar picos, especialmente os negativos, na velocidade do veleiro.

Nas regatas, principalmente no verão, o encontro com marolas de outros barcos é inevitável. Quando Sr. Lancheiro passar à toda na sua proa, mantenha a tripulação no ponto mais baixo e perto do centro de gravidade do veleiro. Isso ajuda a não caturrar mais do que o mínimo possível.

Muitos veleiros com quilha melhoram o seu desempenho quando parte da tripulação se concentra no interior do barco, durante a empopada. Por aqui, chamamos isso de mandar o pessoal para a casa do cachorro! Para quem for escolhido, uma oferta ampla de material de leitura interessante, como as edições da revista Mariner Brasil, é uma boa pedida.

Quando houver ondas, deixe os amantilhos da retranca e do pau de spinnacker levemente tensionados. Esse último requer ajustes precisos e coordenados com a adriça do spinnacker.

Ajuste as duas velas. Você não acredita quantas vezes passamos por veleiros com o spinnacker perfeitamente ajustado, mas com a mestra muito caçada ou então panejando. Os ajustes da mestra mais importantes com pouco vento são folgar a adriça para abaular o meio da vela, ajustar o burro para as brisas e sempre testar os limites para o fluxo laminar. Um par de lãzinhas junto à testa da mestra ajuda a controlar o trabalho do trimmer.

*Texto: Tony Rey/Foto (capa): Marcos Méndez/SailStation

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