Vela

Um tutorial ilustrado para instalar um dessalinizador a bordo

por Administrador
Postado em 21 de Setembro de 2017

Instalar este equipamento a bordo não é dos projetos mais simples, mas certamente trará muita satisfação

Todo mundo tem um equipamento predileto em seu barco. A bordo de nosso veleiro Hunter 44DS, Groovy, meu marido e eu temos uma certa queda pelo nosso “Chartplotter” com radar integrado. No entanto, a nossa verdadeira paixão é pelo dessalinizador. Há algum tempo, resolvemos fazer um cruzeiro de quatro anos na costa mexicana e no Mar de Cortez e, antes de partirmos, Mark instalou um dessalinizador EchoTec 900-Pro-2, fabricado em Trinidad e com capacidade para produzir 150 litros de água doce por hora. Em nossa viagem, durante a qual a temperatura da água do mar se manteve 24 graus, a produção era ainda maior: cerca de 220l/hora. E com que grau de pureza? A unidade de medida para água potável é o TDS (Total Dissolved Solids ou Sólidos Totais Dissolvidos) e, para ser considerada potável, a água não pode ter mais de 500 ppm (partes por milhão). Em San Diego medimos cerca de 350 ppm e, em água engarrafada vendida em supermercados, cerca de 6 ppm. Em nosso cruzeiro, dependendo da origem da água salgada, registramos valores entre 75 e 95 ppm.

Ao contrário da maioria dos cruzeiristas no México, que costumam pernoitar nas maravilhosas — e caras — marinas que existem por lá, preferimos pernoitar fundeados, dependendo totalmente de nosso dessalinizador para satisfazer a demanda de água doce. Nunca enchemos os nossos tanques com água proveniente de terra. Mas, como podemos encher os nossos tanques de 550 litros em pouco menos de duas horas, curtíamos longos banhos, lavávamos o convés regularmente, não economizávamos para adoçar o equipamento de mergulho e nos dávamos ao luxo de lavar o caiaque inflável e o dingue com certa regularidade.

Por que instalar um dessalinizador de alta capacidade? É que em todos os nossos anos cruzeirando pelo mundo nunca encontramos um colega que reclamasse que tinha um grande demais a bordo. Relatamos a seguir o processo de decisão e de instalação do nosso dessalinizador.

Dessalinizadores são equipamentos que demandam muita energia e, como a nossa eletricidade viria de painéis solares e do alternador do motor, um equipamento ligado às baterias não poderia produzir a quantidade de água que desejávamos. Também não queríamos ficar ouvindo o dessalinizador ligado por horas a fio. Um gerador certamente resolveria a questão da eletricidade, mas, por uma questão de custo, optamos por um dessalinizador acoplado ao motor auxiliar.

Um dessalinizador é composto de vários componentes. Para auxiliar o planejamento da instalação, fiz um modelo em papelão da bomba d’água de alta pressão, o coração do sistema, que seria instalada embaixo do motor auxiliar. Sua função é a de pressurizar água salgada para que passe em uma série de filtros e membranas de dessalinização. Usando esse modelo, pude ter a certeza de que haveria espaço suficiente para sua instalação, antes de adquirir o equipamento.

O sistema requer também a instalação de uma entrada e uma saída de casco, uma em cada ponta do equipamento. A captação de água salgada fica embaixo da linha d’água e conta com um registro próprio. E do lado oposto há uma saída para água salobra, que fica acima da linha d’água. O equipamento usa uma bomba de alta pressão para fazer com que a água salgada captada no oceano passe por uma série de filtros que vão retirando dela partículas cada vez menores.

O primeiro filtro é uma rede que retém apenas lixo e objetos maiores, enquanto que o último é um tubo de cerca de 1,20m de comprimento, e que contém a membrana de dessalinização, um filtro osmótico e que, em última instância,  é que retira as minúsculas partículas de cloreto de sódio (o popular sal) da água, antes que ela seja direcionada aos tanques do barco. Como a nossa instalação previa uma localização abaixo da linha d’água, o equipamento foi fornecido com uma bomba adicional.

Com o barco fora d’água para manutenção na fantástica marina Baja Naval, localizada em Ensenada, México, a apenas 70 milhas de San Diego, instalamos as saídas de casco. E Mark fez a instalação do restante do equipamento com o barco atracado nas instalações da marina.

O equipamento chegou de Trinidad em um enorme caixote de madeira, com os componentes mais pesados parafusados no fundo dele. Como cada instalação é diferente, é impossível para o fabricante mandar todos as conexões hidráulicas necessárias e assim compramos o que faltava em lojas especializadas no local.

O principal componente do sistema é a bomba de alta pressão, que foi montada abaixo do nosso motor auxiliar Yanmar 4JH4e de 54hp. Foi feito um suporte preso no motor, pois a bomba tem que se mover em conjunto com ele, para a correia estar sempre na pressão correta. A correia é ligada à polia de PTO (Power Take Off), que é sobreposta à polia principal do motor.

Alejandro Ulloa, um fantástico caldeireiro que trabalha em Ensenada, fez um suporte em “U”, onde prendemos a bomba de alta pressão. Como aço enferruja e aço inoxidável é um material difícil de trabalhar, sua escolha foi por fazer o suporte em alumínio. O suporte foi feito de maneira a permitir que se ajustasse sem dificuldades à tensão da correia. Furos oblongos permitem um perfeito alinhamento da correia. Para instalar o suporte, Mark usou um macaco para suportar o peso do motor, enquanto desmontava os suportes dos coxins. Uma vez posicionado corretamente o suporte, usei parafusos mais compridos que os originais para fixá-lo. Quando terminamos a instalação, ficamos maravilhados com a simplicidade e a precisão com que o suporte se encaixou no lugar. Como o motor foi deslocado para a instalação do suporte, Mark aproveitou para refazer o alinhamento com o eixo do hélice.

O próximo passo seria determinar quais equipamentos seriam instalados abaixo e acima da linha d’água, porque todos as mangueiras instaladas abaixo dela requerem o uso de duas abraçadeiras por conexão. O meio mais fácil de determinar o que está acima ou abaixo dela é conectar uma mangueira transparente em um registro que esteja abaixo da linha d’água, manter a ponta dela em uma posição bem acima e abrir o registro. Parece perigoso, mas na realidade não é. É incrível ver quanto do interior da cabine fica abaixo da linha d’água! Não imaginava que pia da cozinha era uma delas.

Quando a água salgada entra no sistema, inicialmente passa por um filtro rede que remove grama, algas, lixo e o que mais for grande. Depois a água passa por dois pré-filtros. O nosso sistema veio da fábrica montado em série: primeiro são filtradas partículas de 20 micra e depois 5 micra. Um terceiro filtro de carvão ativado serve para retrolavar o sistema com a água doce proveniente dos tanques, em especial a membrana de dessalinização. A principal função desse filtro é retirar cloro da água, que certamente danificaria a membrana.

Como a bomba de alta pressão seria montada embaixo da linha d’água, o nosso sistema necessitava de uma bomba de pressão adicional. Mark montou os dois pré-filtros, a bomba auxiliar e o filtro de carvão ativado no porão, embaixo do paineiro. O par de membranas de dessalinização, medindo cerca de 1,20m, foi instalado lateralmente debaixo de um banco. O painel de controle foi instalado em um gabinete ali perto. Todos esses equipamentos ficaram abaixo da linha d’água.

Com todos os componentes no seu devido lugar, chegou a hora de conectá-los com as respectivas mangueiras. Mark levou a mangueira da bomba a uma empresa especializada, para ser cortada, já que, para suportar a pressão, ela foi construída com uma cinta metálica em seu interior. Esse pessoal também foi o responsável por prensar os terminais nas mangueiras, uma tarefa impossível de ser realizada pelo proprietário.

O restante das conexões de baixa pressão foi instalado por Mark usando as ferramentas específicas para isso. A tubulação de água doce foi dirigida para 3 dos 4 tanques a bordo (retornarei a esse ponto mais tarde).

Conectar as mangueiras aos tanques de bordo foi um pouco mais complicado do que imaginamos inicialmente. Por serem fabricados de polietileno rotomoldado e não haver a previsão de entradas de água adicionais, Mark teve que fazer furos e parafusar engates de p/c aos tanques. Para garantir a rigidez e estanqueidade, ele necessitou desmontar o sensor de nível e, através desse orifício, e com muita ginástica, fixar uma contraporca ao engate. Para vedar bem, Mark usou teflon líquido nas roscas dos engates antes de fazer a instalação definitiva.

O painel de comando do equipamento possui uma conexão onde foi instalado o que chamamos de “tubo da amostra”, que vai por dentro dos gabinetes até a pia da cozinha.

Para operar o equipamento é necessário acionar dois interruptores: um para a bomba auxiliar e outro para engatar a bomba de alta pressão, através de uma embreagem elétrica, ao motor auxiliar.

Vemos então a pressão se elevar lentamente até alcançar a pressão de trabalho, que é de 800 PSI. A água então começa a fluir, inicialmente pelo “tubo da amostra”, para nossa pia. Costumamos coletar 20 litros de água de amostra antes de direcioná-la para os tanques principais. O terceiro tanque de água do nosso veleiro fica embaixo da cama da proa e teria sido muito complicado levar as mangueiras até lá. Para enchê-lo, usamos uma extensão no tubo de amostra, que levamos através da gaiuta para o agulheiro desse tanque, que fica no convés, na proa.

Para lavar o convés usamos baldes que enchemos com o “tubo de amostra” ou então usamos a dita extensão. A água para beber e cozinhar é armazenada em uma bombona de 40 litros, na qual misturamos minerais essenciais e que são removidos no processo de dessalinização.

Se queremos dessalinizar água enquanto estamos “motorando” o veleiro, reduzimos a rotação do motor para 2100RPM. O cruzeiro normal é de 2500RPM e, quando fundeado, deixamos o motor virar com 1500RPM. Em menos de duas horas enchemos todos os tanques.

Garanto que, após uma navegada daquelas bem capciosas, em que o barco fica completamente coberto em uma camada de sal, poder ter água doce suficiente para lavar o convés, tomar um superbanho revigorante e apreciar um bom aperitivo ao pôr do sol, é uma das experiências mais prazerosas durante a vida a bordo

*Texto e fotos: Emily Fragan

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