Vela

Como otimizar o fluxo de ar no balão assimétrico

por Administrador
Postado em 06 de Outubro de 2016

Saiba como trimar a vela que faz a diferença, especialmente para as classes HPE 30, C30 e Soto 4

Por ser uma vela usada em um amplo espectro, desde uma orça folgada até com vento de alheta, ela é muito menos abaulada que um balão/ spinnacker tradicional ou radial. Além disso, sua testa e valuma são sempre testa e valuma, independente de que bordo se está velejando, de forma que os designers de vela podem se dar ao luxo de otimizar essas curvas. É também isso que a faz ser assimétrica.

Tanto faz se o veleiro está orçando, com vento de través ou través folgado, no balão assimétrico o fluxo de ar é sempre da testa para a valuma.

Quando se usa um spinnacker tradicional, o ângulo do pau de spinnacker pode ser ajustado pelo trimmer de forma que esteja sempre perpendicular ao vento e a vela otimizada para um dado rumo da embarcação. Já o Spinnacker assimétrico, por ser preso no gurupés, que tem seu ângulo em relação ao veleiro fixo, exige que a pilotagem seja muito mais precisa para se obter a máxima velocidade possível na perna com vento de popa.

A teoria dá conta de que a maior eficiência do assimétrico é atingida com o vento aparente exatamente de través (90o) e os fabricantes de velas possuem um número ainda mais preciso. Pelo que lembro, é de 93,4o, se bem que ele pode variar de barco para barco.  Por exemplo, um catamarã com fólios vai ter sempre um vento aparente bem mais avançado por causa de sua grande velocidade. O número exato é muito difícil de calcular ou determinar e, na realidade, não é isso que importa para nós velejadores. Estamos muito mais preocupados em como sentimos o barco e com a sua performance.

Para acertar o ângulo exato de maior performance, uso a biruta para colocar o veleiro num ângulo um pouco superior a 90o em relação ao vento aparente. Começo arribado para ter certeza de que manterei a velocidade. Baseio-me no ângulo da escota que está amarrada no gurupés que quando aponta diretamente para sotavento fica em um ângulo perfeito. Se ela está mais para a proa, o barco passa uma sensação de estar lento e não sinto a pressão do vento na nuca. Se estiver mais para a popa, provavelmente posso arribar sem perder velocidade.

Claro que o trimmer também tem muita responsabilidade em relação ao posicionamento da vela, baseado em seu formato. Para ajustar perfeitamente esse ângulo  e otimizar a performance, é de fundamental importância a comunicação precisa entre timoneiro e trimmer e receber constantemente o feedback do restante da tripulação.

O ângulo com o qual o veleiro tem melhor performance com vento de popa (VMG) varia bastante em função da intensidade do vento. Com ventos fracos, o ângulo entre jibes pode chegar a 90 graus, enquanto que para ventos mais intensos pode ser de apenas 20 graus. É uma bela diferença. É interessante notar que em todo o espectro de velocidades de vento os ângulos entre jibes variam bastante e com eles o ângulo entre o veleiro e o vento real, porém, o ângulo do vento aparente é sempre em torno de 90 graus. Quando está ventando forte obviamente o barco está mais veloz que com vento fraco e, portanto, a componente de velocidade do barco influi bastante no vento aparente.

A condição do mar também é relevante e afeta o ângulo da vela. Quando está picado, é necessário orçar um pouco mais para manter o barco em movimento. Com mar liso podemos aumentar o ângulo sem perda notável de velocidade.

Com o aumento da intensidade do vento, deve-se caçar a adriça para evitar que sua curvatura aumente. Da mesma forma, ele deve ser folgada com a diminuição de intensidade. Uma testa muito esticada diminui a perfomance do assimétrico. O formato para melhor performance nessa vela prevê uma barriga considerável - porém não excessiva- em sua testa. Se o barco estiver velejando em mar picado, aumentar a curvatura da testa pode dar a potência extra para passar pelas ondas com mais embalo. Recomendo fazer várias marcações na adriça, uma para cada situação específica, assim a regulagem ideal pode ser feita com maior celeridade.

Uma vez que estiver velejando no ângulo correto, proceda à trimagem fina da vela. Muitos trimmers deixam a vela ondular bastante. Para mim isso é um sinal de que as escotas estão muito folgadas. Testes em túneis de vento mostram que a melhor performance da vela ocorre quando a vela está começando a dar sinais de que vai panejar. É quando o fluxo laminar de ar na parte traseira do assimétrico está mais “colado”. Se a vela está muito esticada, o fluxo descola antes do tempo, reduzindo performance. O objetivo é regular frequentemente a vela, para que fique otimizada o tempo todo.

A regulagem da vela mestra também é muito importante. Gosto de regular o burro de maneira que a tala do topo da mestra fique um pouco mais aberta que a retranca. O vento aparente no topo da vela tem um ângulo um pouco maior do que perto da retranca, pois lá em cima sopra com mais intensidade e há menos influência do vento redirecionado pelo assimétrico. Ou seja, uma leve torcida na vela mestra aumenta sua performance.

Uma vez que o burro esteja ajustado, folgo a escota da mestra até que vejo a mestra ameaçar de panejar e aí caço até que ela se estabilize. Se estiver em dúvida, não hesito em trimar um pouco mais do que o necessário, simplesmente porque me parece melhor e não diminui a velocidade do barco. Já deixar mais folgada reduz a velocidade.  Em situação de vento mais intenso, não gosto de sentir o vento pela popa e, portanto, trimo até que não sinta mais o vento entrar por trás.

Se estiver em primeiro em uma perna do vento, prefira orçar um pouco mais e caçar as velas. Taticamente isso não só é interessante por proteger contra um ataque mas, também, por aumentar a velocidade. Ganhar velocidade em vez de altura, pois, uma vez que estiver velejando rápido, o vento aparente se move para frente e o barco pode orçar mais. Se estiver em dúvida, mantenha a altura por mais tempo, visto que arribar e perder velocidade pode arruinar a perna. Quando o barco estiver muito arribado, perde velocidade e o vento aparente diminui, reduzindo ainda mais a potência sobre o conjunto. Acelerar a partir desse ponto pode ser uma operação muito custosa.

Não importa em que posição esteja na raia, sempre tendo a orçar um pouco mais do que o necessário e aí experimento qual a melhor velocidade arribando um pouco.

Quando o vento está realmente intenso, orçar demais pode deitar o barco e fazer com que perca o leme. Então, nessa condição - ao contrario de quando o vento está leve ou médio -, prefiro velejar um pouco arribado. Uma vez que esteja confortável nessa situação, deixo o barco orçar um pouco mais e testo a reação, deitando o cabelo enquanto presto atenção para que a popa não comece a escapar e eu perca controle.

Um truque que utilizo para velejar nessa condição é tentar manter o mastro na vertical. Durante as rajadas, arribar para que a ponta do mastro se desloque a sotavento e orçar quando o vento diminui, para que a ponta do mastro se desloque para barlavento.

O vento aparente se desloca bastante entre uma rajada e outra. O timoneiro precisa ficar bastante atento e, de preferência, antever seus movimentos, em vez de reagir, fazendo com que o vento aparente esteja sempre em torno do ângulo ótimo, que é de cerca de 90 graus. Me ajuda muito se o tripulante encarregado de observar o vento canta “rajada em 3, 2, 1 Rajada!” ou então o não menos importante 3, 2, 1, para cantar o fim de uma rajada.

Procuro sempre me adiantar para permanecer com vento aparente ideal e comando o leme quando ouço o “1”, assim consigo uma transição otimizada. Se me atrasar um pouco, terei de fazer movimentos mais bruscos com o leme. Sei que estou fora de sincronia quando vejo o trimmer tendo que caçar ou folgar grandes quantidades de cabo. Quando o veleiro está se movendo com boa velocidade independentemente das rajadas, tudo parece suave a bordo, com um mínimo de cliques vindo das catracas, sei que estou pilotando com maestria.

O vento aparente ronda muito mais rapidamente em barcos menores, pois também eles aceleram e desaceleram com maior rapidez, e a velocidade do barco é quem determina a direção do vento aparente. Por sorte, esse tipo de embarcação também é mais ágil e, portanto, é necessário um monte de ação no leme para manter o rumo correto. Além disso, esse tipo de embarcação plana rapidamente, então muito de seu esforço deveria ser canalizado para planar e, principalmente, manter o planeio. Orçar um pouco para planar vale a pena, pois uma vez em planeio, o vento aparente ronda para frente e o barco acelera permitindo arribar o quanto for preciso.

Riley Schutt contribuiu com esse artigo conduzindo os testes em túnel de vento nos laboratórios de dinâmica de fluidos de Cornell. Ele é um dos candidatos a  PhD do Professor Charles Williamson. Schutt teve participações recentes nos times de design da Volvo Ocean Race e America’s Cup. Williamson é velejador entusiasta da Classe Laser.

Controles essenciais para o spinnacker assimétrico

Extensão do Gurupés
O design do spinnacker assimétrico considera que o gurupés esteja totalmente estendido, portante assegure-se de que ele está nessa posição, mantendo a vela longe de interferências da vela mestra.

Altura da escota do gurupés
Gosto de manter essa escota curta, somente o suficiente para ver a direção em que está puxando. Minha experiência diz que cerca de 15cm está OK. Se estiver mais folgada que isso, é como se estivesse usando um pau de spinnacker muito avançado.

Tensão da adriça
Quanto mais tensionada estiver a adriça do assimétrico, mais estivada ficará a testa e mais para frente se desloca a barriga da vela. Consequentemente, folgar a adriça desloca a barriga para trás. Com pouca tensão na adriça, o topo da vela poderá torcer, bem antes da parte inferior. Certifique-se de que a adriça seja pré-estirada e que tenha uma marca indicando a chegada no batente.

*Texto: Mike Ingham.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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