Vela

Sua largada não foi boa? Veja como se recuperar

por Administrador
Postado em 26 de Maio de 2017

Todo mundo está sujeito a não largar bem, e não há razão para pânico se isso acontecer com a sua equipe

Foi dado o tiro de largada. O vento está nitidamente perturbado pelos barcos que estão à sua frente. Além disso, tem gente a sotavento, de forma que cambar não é uma opção, a não ser que queira perder muito tempo esperando para passá-los pela popa. Fique por aí e, com certeza, é “game- over”, pelo menos nessa regata.

O que você precisa é encontrar um jeito de sair dessa enrascada, mas qual a melhor forma e hora para fazê-lo?

Minha experiência diz que será ou um extremo ou outro. Passe cedo pela popa da flotilha, encaixando os prejuízos, ou seja paciente e espere que apareçam oportunidades. O meio-termo parece ser sempre a pior escolha.

Enquanto não decide, tenha a certeza de que está velejando com a maior eficiência possível. Mantenha o barco com velocidade, mesmo que tenha que folgar um pouco as velas. Desde que não perca muito mais do que 20, 30 segundos, você vai acabar na mesma posição que antes da cambada (diagrama 1), mas com maior velocidade, o que é fundamental se alguém decidir cambar para cima de você. Isso também abre um pouco de espaço a barlavento, sem ter que passar muitos barcos pela popa, o que pode custar muitas posições.

Não cometa o erro de arribar ao extremo, para tentar manter a posição na raia. Quando chegar o momento de cambar, estará com pouca velocidade, comprometendo a manobra.

Cair fora cedo
Se reconhecer cedo que está em uma posição ruim para a largada e encontrar uma “avenida” a sotavento, a melhor saída é cambar antes da largada. Cambe, passe pela popa de toda a flotilha. Estão todos com o vento por boreste, concentrados na largada e o último veleiro (o que está mais perto da comissão de regatas) não está preocupado com alguém chegando pela sua popa e sim se concentrando em acelerar e fazer uma boa largada. Nem imagina que alguém possa estar com vento por bombordo, passando por trás e não vai querer cambar para cima de você. Entrementes, você é o primeiro a estar com vento por bombordo e no vento limpo (diagrama 2).

Na TP52, quando a flotilha ainda era muito pequena, o Azzura usava muito essa escapada. Em uma ocasião estavam embolados a 30 segundos da largada, então a 20s cambaram e passaram toda a flotilha pela popa. Quando foi dado o tiro, estavam embalados e isolados. Quando deram seu primeiro bordo, o restante da flotilha estava cabeça a cabeça com eles e tiveram que ceder a passagem, devido ao direito de preferência por estarem com a retranca à esquerda.

Suponha que alguém largue no mesmo bordo que você e à sua direita. Se ele cambar, você acompanhar a cambada, e ele cambar uma segunda vez, normalmente sua vantagem é tanta que consegue passar na sua frente pelo simples fato de ele ter executado a manobra duas vezes. No entanto, se ele largar no contrabordo, na hora em que se encontrarem ele terá executado a manobra somente uma vez, de modo que a largada nessas condições pode ser uma tática poderosa.

Vi isso acontecendo em Key West no ano passado e também durante uma regata a bordo do Interlodge, um TP52 que é um veleiro de grande estabilidade, mas meio reticente em ventos mais fracos.

Estavam todos se batendo em ventos de cerca de 5 nós e achávamos que deveríamos largar à direita da linha, de forma que, a dois minutos do tiro, cambamos e passamos pela popa de todos em uma orça folgada, com boa velocidade. Alguns competidores tentaram cambar para cima de nós, mas, como estavam orçando apertado em um vento fraco, não conseguiram. Tínhamos o momento adequado e a vantagem de não precisarmos cambar em vento fraco, e assim ganhamos o lado.

Em flotilhas com menos de dez barcos, dar uma escapada com vento por bombordo antes da largada pode funcionar muito bem, mas, quando o número de participantes aumenta para cerca de 20, encontrar uma “avenida” para realizar a manobra pode ser complicado. Se, por exemplo, houver cerca de 50 barcos alinhados para a largada, com certeza encontrará veleiros tentando se posicionar ao redor do barco da comissão de regatas e terá dificuldade para sair com vento por bombordo.

Decida logo
Por que arriscar uma cambada logo de cara, depois de uma largada ruim? Imagine que esteja esperando um veleiro à sua direita cambar, para dar o seu bordo. Em algum momento, você terá que  arcar com o prejuízo de passar pela popa dele. Se você o fizer logo após a largada, esse barco pode estar a meio-barco do líder. Se você esperar uns cinco minutos, a vantagem dos barcos da frente deverá ter aumentado para cerca de dez comprimentos de barco.

A ideia por trás de uma cambada no início da regata é que você terá mais tempo para se recuperar do que se decidir ficar no meio do pelotão por mais tempo. Vamos imaginar uma perna de 10 minutos. Se resolver assumir o prejuízo da largada ruim e de ter que passar outros barcos pela popa logo no começo, perderá cerca de 30 segundos, sobrando 9 minutos e meio para se recuperar. Se aguardar 5 minutos no meio da turba, esperando  o veleiro à sua direita dar um bordo para acompanhar e sair do vento ruim, terá menos de 5 minutos para trabalhar a desvantagem para a ponta. Nesse caso, esperar reduz muito as suas alternativas.

Veja a seguir dois cenários em que cambar cedo funciona bem.

Os competidores estão agrupados perto da comissão de regatas, com as velas folgadas, aguardando o tiro de largada e você está atrás, a sotavento. Pode apostar que todo mundo está pensando “eu não vou cambar”. É a deixa para cambar cedo e sair estrategicamente por boreste (diagrama 3).

Os barcos a barlavento estão em um rumo confortável e o vento muda de direção, permitindo uma orça mais folgada. Nessa condição, dificilmente alguém vai querer cambar junto com você. É uma boa hora para passar pela popa deles e se beneficiar do vento mais limpo (diagrama 4).

Ter paciência
A melhor razão para ter paciência é evitar o efeito pingue- pongue, ou seja, veleiros cambando na sua frente ou para cima de você. Nessa hora, ter paciência é fundamental, pois a flotilha ao seu redor acaba se reduzindo naturalmente e  dá a você a oportunidade de melhor avaliar a hora certa de escapar. Fique atento à sua volta, tentando identificar onde ocorre adensamento de competidores.

Outra situação em que vale a pena ter paciência é quando ocorre uma mudança clara da direção do vento e você suspeita que alguém vai cambar na sua frente. Mantenha a calma, pois você vai dar ao seu oponente mais uma razão para cambar para cima de você. Continue no seu rumo, seja paciente, e espere que ele cambe antes.

Quase sempre vale a pena ter paciência, em lugar de  procurar a saída rápida. Se você for paciente e velejar com vento sujo por uma perna, pode perder 10 comprimentos de barco, mas, se for “pingue- pongueado” e tiver que executar diversas mudanças de bordo, vai perder muito mais que isso. Se estiver velejando no meio da flotilha, com ar sujo, a chance de cambarem para cima de você é grande. Além disso, se decidir permanecer na rota congestionada, vai velejar  com vento sujo, condição em que  uma escapada vai tomar muito tempo. Muitas pessoas tentam escapar cedo cegamente, assim que se veem em maus lençóis. Tente ser paciente. Você pode se surpreender vendo como, às vezes, funciona.

*Texto: Andy Horton/Ilustrações: Paul Todd/Foto: Marcos Méndez/SailStation

 

 

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