Lanchas

Como conduzir de forma segura em qualquer velocidade

por Pete McDonald
Postado em 12 de Abril de 2018

Andamos com o pessoal do Miss Geico Racing Team, dos EUA, e relatamos aqui o que aprendemos

(Foto: arquivo/Mariner Brasil)As águas tropicais da Biscayne Bay, na Flórida, até que parecem bem inofensivas enquanto estamos saindo da marina em marcha lenta. Claro, por lá circulam dúzias de outras lanchas misturadas com navios cargueiros e de passageiros, mas tudo em um clima de completo controle. De repente, Marc Granet encosta as manetes no painel e tudo muda num piscar de olhos.

Granet é um dos melhores pilotos de lancha do mundo. É ele quem comanda a “Miss Geico”, uma lancha de corrida de 50 pés, com casco tipo catamarã  e com dois motores de centro-rabeta Mercury de 1650 hp, que alcança  velocidades acima de 150 mph (240 km/h), enquanto disputa posições com lanchas similares a poucos metros de distância. É dono de seis títulos mundiais e de quatro recordes em disputas entre  os países, sendo que no  último  alcançou 210 mph (337 km/h). E hoje está nos levando para  uma volta no barco VIP da equipe Geico, uma Cigarette 38 Top Gun, para nos dar algumas dicas de segurança, as quais espero que  sejam úteis para vocês, nossos leitores.

“Muitas vezes vi como um bom dia n’água se transformou num péssimo num piscar de olhos”, conta Granet.

Com o velocímetro da nossa Top Gun batendo nas 80 mph e os outros barcos no canal virando reles borrões, rapidamente (sem trocadilho) me dei conta de que era melhor eu prestar atenção.

Segurança, mesmo parado
É verdade, segurança a bordo deve começar a partir do momento em que se entra no barco. Enquanto não vesti o colete salva-vidas oferecido pelo companheiro de equipe de Granet, Scott Begovich (navegador da “Miss Geico”), não me deixaram subir a bordo. 

“Você jamais vai nos ver andando de barco sem um colete salva-vidas”, conta Granet. “Claro que sabemos nadar, mas, e se ao cair na água você machucar a cabeça ou um braço?” Cair na água de um barco parado é bem diferente do que cair com ele em movimento. Sem contar o risco de bater no casco ou até ser colhido por um hélice. Em alta velocidade, cair na água do jeito errado é como se você caísse no concreto. E, se estiver machucado, um colete pelo menos  mantém você boiando. 

Enquanto o barco ainda estava atracado, Granet e a equipe da Geico deram uma última revisada, verificando o nível dos fluidos, direção e cabos de bateria, para ter a certeza de que  tudo estava em ordem, antes de nossa pequena aventura. Em dia de corrida, negligenciar algum  detalhe,  por mínimo que seja, pode significar a diferença entre ganhar ou perder. Normalmente quem usa o barco para o lazer gostaria que um barco fosse que nem o seu carro. É só entrar, virar a chave e sair. Só que não! Barcos são equipamentos complexos e precisam de um pouco mais de atenção.

“Se o nível do fluído hidráulico estiver baixo e você não checar”, diz Granet, “pode ser que você tenha iniciado um acidente que ainda vai acontecer”. Mais tarde, ao sairmos da barra em alta velocidade, com ondas de metro e meio pela frente, tentei não imaginar o que aconteceria se perdêssemos a direção.

Conheça sua lancha
As ondas só aumentavam, assim como a velocidade que Granet estava imprimindo ao barco. Em pouco tempo estávamos pulando de onda em onda, com os hélices saindo d’água, e estava me sentindo como se estivesse voando. Uma olhada no GPS revelou que estávamos a 50 mph, abaixo do limite de velocidade da maioria das estradas!

As lições aqui são as seguintes: primeiro, a sensação de velocidade na água é bem maior do que em um carro, principalmente quando os elementos entram na equação e você não está com um cinto de segurança. Segundo: o piloto estava totalmente no controle da embarcação, que foi construída para fazer exatamente o que estávamos fazendo. Na realidade, Granet confidenciou que o barco teria uma melhor performance se ele avançasse um pouco mais os manetes, mas que eu não iria poder apreciar tanto. Um capitão inteligente conhece bem o seu barco.

“Recomendo que você encontre uma baía abrigada, de aguas calmas e, equipado com um salva-vidas e na companhia de um amigo, você teste os limites de seu barco”, diz Granet. “Comece fazendo curvas em velocidade (nota do editor: em torno de 30 mph) e sinta as reações do barco”. Como ele reage em frente das ondas? Como se comporta quando está com mais peso? Que acontece se há tripulantes na proa, ou todos de um lado? Há diferença significativa, dependendo do nível dos tanques? Assim você aprenderá como o barco reage, caso tenha que fazer uma intervenção rápida. “Às vezes, girar o volante 10 graus é o suficiente para fazer uma manobra evasiva”, conta. 

No meio do tráfego
Retornando à base, Granet para o barco fora do canal principal e passamos a revisar alguns pontos de segurança. Enquanto conversávamos, um cara em uma lancha de console central com três grandes motores de popa passou voando por nós e um iate maior vinha na direção oposta a umas 25-30 milhas. De repente, o barco de console central começa a fazer uma curva e, ao ver o iate, rapidamente volta, fazendo uma curva em “S”. “Olha isso”, diz Granet. “Um comandante experiente errou, pondo a vida de seus três tripulantes e a de seis outros no iate em risco. Por sorte, ele conseguiu corrigir a tempo e sair do caminho”. 

Quem está no leme de um barco tem que estar vigilante o tempo todo e se ligar em tudo o que acontece à sua volta. Granel está acostumado a operar em velocidades entre 150mph e 180 mph, lado a lado com outros monstros pesando mais de toneladas. E aí vai como ele administra a situação: “Sempre assumo que os outros não estão me vendo”, explica. “Sei que nas outras lanchas de corrida estão profissionais experientes; mesmo assim eu conto com imprevistos, dos quais eu não tenho ideia, quando disputo com eles em uma curva a 140 mph”. E, quando Granet está passeando com a família, é a mesma coisa. “Aquele camarada na big lancha de pesca está me vendo?”, pergunta. “Estou numa lancha pequena, com casco branco em um dia cinzento; não posso ter certeza”.

Se um dia você se encontrar na mesma situação que aquela lancha de console central cortando a frente do iate, você tem que achar um jeito de sair dela. E rápido.

Entendendo a velocidade
Quando Granet chegou a uma zona com limite de velocidade de 5 mph, reduziu completamente as manetes, mesmo assim o barco ainda planou por cerca de 15 m, depois de alcançada a placa de sinalização. Sem querer, ele demonstrou o princípio básico ensinado em qualquer curso para iniciantes: barcos não têm freios.

As lanchas modernas estão ficando cada vez mais rápidas, de modo  que seus comandantes têm que ficar cada vez mais atentos (não é raro encontrarmos lanchas capazes de chegar a 50, 60 ou até 70 mph).

“Muita gente ainda não está acostumada com a velocidade de aproximação entre os atuais barcos, mais velozes que antigamente”, diz Granet. “É como atravessar uma estrada correndo: você pensa que tem bastante tempo, começa a correr e no meio do caminho percebe que, “ups, os carros estão mais rápidos do que eu imaginava”. 

Estudos de seguradora determinaram que o tempo médio de reação para a maioria das pessoas é de cerca de 1,5 segundos. Não é um número definitivo, nem é fixo; milhares de variáveis podem influenciá-lo, mas serve bem para ilustrar o que segue.

A 50 mph, uma lancha anda 22m por segundo. Então, com um tempo de reação hipotético de 1,5s, ela terá se deslocado por 33m, antes que o piloto esboce qualquer reação. Pense, e pergunte a si mesmo: você está a uma distância segura de outras embarcações? Quando dirigimos um carro, as auto-escolas ensinam que devemos dar um espaço de 3 segundos entre o nosso carro e o da frente. Quem anda de lancha, por não ter freios, deveria dar uma margem ainda maior. 

Os mesmos problemas que encontramos na condução de automóveis ocorrem ao pilotar uma lancha sair da faixa, digitar textos no celular, distrações generalizadas e até encostar demais no barco da frente.

Manobras evasivas
Quando retornamos ao planeio, com outros barcos ao nosso redor, Granet retoma a manobra evasiva feita pelo piloto daquele barco de console central.

“Ele se safou acelerando e corrigindo o rumo”, diz. “Se ele virasse demais o volante ou desacelerasse, poderia ter se colocado em maus lençóis”.

Quando cortamos abruptamente o acelerador dos motores, o centro de gravidade (CG) e o eixo de equilíbrio do barco,  os outros tripulantes do barco são arremessados para frente e o mesmo ocorre com os líquidos, como combustível e água doce em seus tanques. A proa desce e a popa sobe e, em casos extremos, pessoas podem sair machucadas.

A mesma situação acontece quando fazemos as curvas em alta velocidade. O CG sai do eixo e pessoas podem ser arremessadas. Se concomitantemente o casco “enroscar” em alguma onda ou os hélices cavitarem o barco, pode até dar um cavalo de pau. Portanto, sempre que possível, evite movimentos bruscos, tanto com os manetes quanto com a direção. 

Durante as corridas, Granet e seu navegador, Begovich, tentam se antecipar sempre, para evitarem os movimentos mais bruscos. “Nossa embarcação consegue andar um campo de futebol por segundo e eu estou sempre olhando para o próximo campo”, conta Begovich. Antes mesmo de virar o leme, Granet já está pensando em como vai fazer a próxima curva.

E faz igual quando está saindo com a família para um passeio de fim de semana. “Fico sempre imaginando que efeito a esteira deixada pelo barco que está 20 segundos à minha frente terá sobre a minha lancha”, diz. “O que está fazendo aquele jet ski? Onde está aquela lancha puxando a boia com os dois meninos”?

Talvez a maior qualidade desse campeão mundial seja a consciência sobre o meio que o circunda. “A maioria dos comandantes possui essa característica”, complementa. “Ao se aproximar de uma barra, por exemplo, já realizaram toda a manobra mentalmente, analisando o movimento das ondas e das marés, se aquele veleiro a boreste está com motor auxiliar ligado e se aquela outra lancha saindo a bombordo está com a intenção de cruzar à sua frente e então já sabem onde e quando têm que estar no momento certo.

Voltamos a navegar a 80 mph; os marcadores dos canais não passam de borrões zunindo dos dois lados e as outras lanchas parecem estar paradas. E eu estou tranquilo por saber que Granet é um homem de visão. 

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