Lanchas

Testamos: Cranchi Eco Trawler 53

por Michael Verdon
Postado em 09 de Janeiro de 2015

O estaleiro italiano Cranchi — mais conhecido pela linha de lanchas coupé e flybridge — se reinventou após o lançamento deste modelo

O estaleiro italiano Cranchi debutou no mundo dos motoriates de cruzeiro com o modelo Eco Trawler 53 LD. A empresa, mais conhecida pela sua linha de lanchas coupé e flybridge, se reinventou com o lançamento desse novo motoriate de cruzeiro de 53 pés. O barco é amplo, de aspecto intrépido e com autonomia de quase 2.000 milhas náuticas a 7,5 nós. Além da eficiência, os quatro painéis solares dispostos sobre a cabine de comando, deixam claro o seu posicionamento pró-ecologia.

Quando vi este trawler pela primeira vez, exposto entre os outros barcos da linha Cranchi no boat show de Cannes, tive dúvidas se ele combinava com a família Cranchi. Bastante volumoso, com um casco agressivo e uma superestrutura quadradona, de alguma forma ele se sobressaia dentre as lanchas de linhas esguias do fabricante. Além disso, a presença de muitos clientes a bordo da embarcação fazia com que fosse difícil apreciar todos os seus detalhes.

Oito semanas depois, ao subir a bordo do barco, ficou claro que o estaleiro tinha descoberto “o” nicho no segmento dos trawlers. “O mercado de barcos está sempre mudando, e nós temos que mudar com ele”, diz Paola Cranchi, diretora da empresa e membro da família que construiu o primeiro barco no lago Como em 1870. “Temos que antecipar o que o mercado em mutação está buscando antes que a nova tendência se estabeleça em definitivo.”

Então os Trawlers são uma tendência? Muitos estaleiros italianos acreditam que sim, e estão focando neste segmento. Inicialmente perguntei-me se “Eco Trawler” não era uma forçada de barra do pessoal do marketing, para surfar a onda “verde” e mais facilmente conquistar o mercado dos fabricantes mais tradicionais deste tipo de barco. Mas logo ficou evidente que a Cranchi estava levando o segmento a sério e desenvolvendo tecnologia sustentável de ponta para se estabelecer como marca de vanguarda.

O estaleiro desenhou um convés com jeitão tradicional, adicionou um casco com seu DNA e se certificou que o barco tivesse todas as características de um Motoriate de Cruzeiro, ou seja, que cada detalhe de seu interior fosse adequado para realizar  travessias ou cruzeiros de longa duração. Detalhes como um  Bimini retrátil no convés de proa, uma ampla porta no cockpit de popa, que com sua abertura quase que total permite a integração com o salão principal, e telas mosquiteiras nas gaiútas e vigias, são indicativos de que os projetistas focaram mais os clientes cruzeiristas e/ou os que escolhem o barco como moradia, do que os que curtem a embarcação por curtos períodos e fins de semana.

O que mais impressiona na 53 é a maneira como a Cranchi resolve de forma equilibrada o delicado balanço entre forma e função. O amplo salão em dois níveis do 53 por exemplo, possui pé-direito de mais de dois metros com grandes janelas em toda a sua extensão, exceto por algumas colunas estruturais a meia nau e na popa. A luz natural abundante, o layout clean e organizado da parte traseira do salão, com a cozinha a bombordo e um sofá de couro branco a boreste, reforçam a sensação de espaço. Estes elementos, combinados com os materiais de agradável tato utilizados (painéis de carvalho com acabamento em relevo, detalhes em camurça e couro, prateleiras de olmo com acabamento liso e suave), fazem com que o salão mais pareça com um apartamento de luxo do que com o habitáculo de um barco.

Nele não há espaço para extravagâncias ou firulas desnecessárias. Todo o projeto é pensado tendo em mente o cruzeirista e cada centímetro é bem aproveitado. A janela panorâmica que separa o sofá de boreste da cabine de comando é um bom exemplo disto. A maioria dos estaleiros usaria uma divisória opaca para separar estas duas áreas e, ao optar por uma divisória transparente, tem se a sensação de continuidade por toda a cabine. Não obstante, uma persiana permite uma separação entre as duas áreas. É apenas um detalhe, mas que contribui para aumentar a qualidade de vida a bordo.

Outros itens de conforto incluem uma ampla cozinha (com um balcão 1,10m x 1,80m), contendo uma geladeira residencial Indel, forno Trinox com revestimento de cerâmica na parte superior, forno micro-ondas Nardi e uma adega refrigerada Isotherm. Interessante também é o balcão incluído pela Cranchi na cozinha, que, com a porta do salão aberta se transforma em um bar ao ar livre. Uma TV Samsung de 32 polegadas instalada em um pedestal entre as duas metades do salão completa o layout.

A estação de comando interna, quase um feudo pessoal do capitão, ostenta um banco que mais parece um trono e é elegantemente separada do sofá a bombordo em forma de “U”  e de sua mesa de madeira teca por um corredor. O banco e seu pedestal, desenvolvidos especialmente para o barco pela Cranchi tem à sua frente o painel com os instrumentos e à sua direita um painel auxiliar onde ficam os comandos de aceleração e engate dos motores, joy-stick e comando do trim, tudo bem à mão.

O casco #1 do Eco Trawler 53 foi equipado com um display multifuncional de 12 polegadas Garmin 8000 (que inclui um radar e um piloto automático GHP 10 interligado ao sistema Volvo Penta IPS) do lado esquerdo do painel, com o comando do Bow Thruster da Side-Power logo abaixo, e uma saída de ar condicionado no limite inferior. Á direita, na parte superior ficam os instrumentos dos motores, os displays multi-função da Volvo Penta e acesso ao sistema de ajuste do trim da Humphree. As manetes de comando e aceleração estão localizados na extremidade direita, logo abaixo de um compartimento para guarda de mapas. O amplo para-brisa, composto por um único painel de vidro sem divisórias, favorece a visão frontal e está equipado com três grandes limpadores prontos para entrarem em ação se o tempo resolver mudar.

Para nossa sorte, os limpadores não foram necessários, pois o dia do teste estava ensolarado e quente, com pouco vento e ondulação de 30cm a 60 cm

O Eco Trawler 53 é propulsionado por dois motores diesel VolvoPenta IPS600 de 435 hp cada, e rabeta tipo pod. A Cranchi optou pelo sistema IPS da Volvo não só porque otimiza o tamanho da sala de máquinas (deixando mais espaço para a suíte master a meia nau), mas também por serem bastante eficientes, tanto na confortável velocidade de cruzeiro econômico de 11,4 nós a 2500 rpm, como na velocidade máxima que beira os 22 nós. A minha preferência pessoal seria de operar esse motoriate de cruzeiro na velocidade econômica, pois não tenho pressa e a autonomia mais que dobra.

Pilotar o Eco Trawler 53 é bastante prazeroso, pois singra com suavidade ao manter o curso e, quando necessário, faz curvas com surpreendente agilidade – ao contrário da navegação mole e com bastante rolagem dos trawlers tradicionais, com seus cascos de deslocamento arredondados. Passei uma dúzia de vezes pela nossa própria marola, e ele sempre se manteve firme e suave. Testei também o joystick do sistema IPS para manobrar e impressiona a facilidade com que se coloca o barco na posição exata (como na atracação pela popa, por exemplo).  O 53 é um barco que propicia a pilotagem por longos períodos e, como a estação de comando do Fly fica a bombordo, permite que se use sempre uma estação próxima nas manobras de atracamento lateral (se for de bombordo, no Fly, se for a boreste, na cabine de comando). A sensação de estar sentado atrás de um solário de mais de 6 metros quadrados (2m x 3m), ao invés de totalmente à frente, como ocorre na maioria dos outros barcos, requer uma pequena adaptação, mas a visibilidade sempre é muito boa, sem impedimentos. O console do Fly também é bem equipado, com um display Garmin de 15 polegadas, sistemas de ajuste de trim, instrumentos dos motores, joystick de controle, e um VHF Garmin 300.

A Cranchi desenvolveu o Fly para propiciar a socialização. Além do grande solário, há também um Sofá de 1,85m x 1,35m  com uma mesa de teca de 33 de 0,84m x 1,04m. Atrás deste sofá está o bar completo que inclui uma churrasqueira, um refrigerador Isotherm e uma máquina de fazer gelo. A distancia entre esse bar e o corrimão traseiro é de 2,46m.  A antena do radar fica na torre de aço inox a uma altura de 7m da linha d’água, e na mesma torre havia também uma antena para TV por satélite KVH TracVision. Ou seja, tudo indica que o barco foi feito para longos cruzeiros.

O diferencial desse trawler da Cranchi é sua proa, que também serve para o entretenimento dos convidados, com um solário na parte da frente, e um amplo sofá que se estende até o para-brisa. Um Bimini translúcido afixado no para-brisa, e que cobre toda a área de entretenimento frontal, foi a maneira inovadora desenvolvida para deixa-la na sombra.

E, finalmente, o cockpit da popa oferece uma terceira área social, com um Sofá e um vão livre de quase dois metros para a porta do salão, que abre de bordo a bordo, promovendo a integração com o salão.

O layout do convés inferior com suas três cabines também é bem proporcionado. A suíte Master fica a meia nau e vai de um bordo ao outro da embarcação, a cabine Vip se encontra na proa, e entre elas há uma área para qual a Cranchi oferece aos seus clientes quatro opções de utilização: escritório, terceira cabine, dinette, ou depósito. Esta unidade estava equipada com o escritório, que inclui mesa de trabalho, sofá, além de permitir a instalação de uma máquina de lavar. O estaleiro poderia ter previsto grandes janelas nesse espaço para permitir a entrada de mais luz em vez de uma simples escotilha.  Mesmo assim o ambiente é espaçoso, e transmite esta sensação.

A cabine vip do 53, conta com um sofá de dois lugares a bombordo, uma cama queen no centro, um amplo armário a boreste e parece ser mais espaçosa que cabines VIP de outros barcos de sua classe. O pé-direito vai de 1,88m em seu ponto mais alto, até 5 1,57m sobre a cama. A Cranchi fez um bom trabalho para aproveitar todo o espaço disponível para uso em cruzeiros longos, como por exemplo aproveitar o espaçòe debaixo da cama como tanque de água doce.  Paineiros espalhados pelos pisos das três cabines dão pleno acesso ao porão.

A suíte máster é o exemplo perfeito de um projeto inteligente. Uma cama queen-size encostada no bordo de boreste propicia uma bela visão do mar através da ampla janela lateral. A bombordo ficam o closet e um gabinete com escrivaninha integrados e o banheiro ocupa o fundo da cabine, incluindo entre outras amenidades box de vidro na ducha e paredes e pisos em teca. Parte da sensação de espaço que a suíte Master transmite é devido à posição da cama, mas a escolha de motores diesel Volvo Penta com IPS, que podem ser montados mais à ré que os com transmissão convencional, também propicia maior espaço.

O layout da bem acabada sala de máquinas e o distanciamento entre os motores  é adequado para fazer a sua manutenção. Os tanques de combustível em polietileno possuem indicadores visuais de nível de combustível em suas laterais de modo que a verificação do nível do tanque é facilitada.

Nota-se por todo o barco uma preocupação utilizar material de primeira e produzir um acabamento de qualidade.  Não obstante, pude observar em um batente de porta interna madeira compensada aparente, e tenho a impressão que algumas ferragens externas poderiam ser um pouco mais reforçadas, o que, por sua vez, não compromete a impressão geral de barco bem acabado.

Em seu primeiro modelo de trawler, a Cranchi desenhou um barco vencedor, aproveitando todo o know-how adquirido na produção das suas outras linhas de barcos, porém mantendo as coisas simples e funcionais. O seu visual marcante incialmente pode causar estranheza aos mais tradicionalistas, mas, uma vez percebidos e avaliados todos os seus detalhes, o Eco Trawler 53 LD tem tudo para se tornar o queridinho dentre os motoriates de cruzeiro disponíveis no mercado.

Energia solar
Os quatro painéis solares sobre a cabine de comando do 53 podem até suscitar dúvidas sobre a sua eficácia, mas eles são muito mais do que simples ornamentos de capô. Produzidos com materiais resistentes ao ambiente marinho, os painéis flexíveis Solbian SP 100s têm sido muito utilizados em veleiros de regatas transoceânicas. A Solbian informa que seus painéis de 32 células fotovoltaicas cada, pesam um sexto dos tradicionais painéis de vidro e são quase 25% mais eficientes. Em condições ideais fornecem 400W de potencia e são utilizados pela Cranchi no carregamento das baterias de serviço do barco. Um display no vão da escada interna permite que você monitore o fornecimento de energia.


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