Marinharia

A Bíblia do Fundeio: aprimorando suas técnicas de ancoragem

por Alvah Simon
Postado em 11 de Janeiro de 2018

Utilizar técnicas de fundeio corretamente possibilita ao comandante prender-se a qualquer tipo de fundo na imensidão do nosso planeta

A Bíblia do Fundeio: Aprimorando suas técnicas de ancoragem (Foto: reprodução)À medida que o peso total dos livros e artigos a respeito de técnicas de fundeio se aproxima do peso total dos ferros (âncoras) somado, é natural que se faça a pergunta: por que mais uma matéria sobre o tema?

E a resposta é simples. Nenhuma outra técnica de marinharia afeta de forma tão direta a segurança de nossas embarcações. É necessário fazer certo da primeira vez, todas as vezes, ou as coisas podem sair do controle. E é por isso que o tópico volta sempre, de tempos em tempos.

Para os desavisados, o fundeio pode parecer muito simples: é só jogar um ferro com bastante cabo dentro d’água. Mas, na verdade, é uma tarefa que requer planejamento, experiência e até uma dose de sutileza, para nos prendermos com segurança na terra firme do fundo.

A primeira coisa a ser considerada é a âncora em si. Qual o melhor modelo, peso correto ou até a quantidade ideal para cada situação?

A variável mais importante, sem dúvida alguma, é escolher um ferro de peso adequado. Uma regra empírica muito vaga é usar um ferro que pese 1,5 kg por metro de comprimento de casco, se a sua embarcação estiver no extremo mais pesado do espectro. Se o suporte do ferro, os cunhos e o guincho aguentarem, não há desvantagens consideráveis em usar um ferro maior do que o recomendado. Uma das características dos guinchos elétricos é a sua carga máxima, normalmente três vezes a carga nominal, que vem a ser o peso do conjunto ferro/corrente/cabo, uma vez que esteja solto do fundo. A boa prática recomenda que é o motor do barco, e não o guincho, que deve ser usado para movimentá-lo em direção ao local onde o ferro está preso ao fundo. Em um caso de um sistema contendo 100 m de corrente de 10 mm, e que pese 180 kg, aumentar o peso do ferro em 2,5 kg adiciona menos de 2% na carga de trabalho do sistema, pouco afetando as tolerâncias de projeto. No entanto, esses 2,5 kg podem fazer grande diferença na área da superfície de trabalho da âncora.

 

Dica Mariner: Se achar que o ferro não está firme o suficiente ou não está na posição exata que deseja, refaça a manobra. Gastar 10 minutos a mais nesse momento garante algumas horas de sono a mais à noite. 

O debate prossegue, quando se chega no ponto de decidir qual o melhor modelo para cada caso. Ele não só passa por preferências pessoais, como é ladeado por todo tipo de consideração, inclusive as financeiras. E, como os diferentes modelos se adaptam melhor a diferentes fundos, para a escolha mais adequada é importante conhecer com antecedência o tipo mais comum nas áreas de cruzeiro em que o barco vá fundear.

As principais características a serem consideradas são: robustez de materiais e construção, força de retenção em barro, areia e pedras, suscetibilidade a enroscar e/ou travamento de articulações, e a compatibilidade com as ferragens do convés.

Os estilos predominantes, quanto ao formato são: com pás (categoria que inclui os modelos da Almirantado, Danforth e Fortress), arado (incluindo CQR, Rocna e Delta) e garra (Bruce). âncoras do tipo cogumelo e garateias são de uso muito restrito e não serão consideradas nesse artigo.

Quando for escolher uma âncora, procure comparativos realizados por publicações sérias e escolha a que melhor se adapte aos fundos em que pretende usá-la.

A bordo de meu veleiro de 36 pés, e que pesa 9 toneladas, carrego três ferros diferentes: uma Rocna 55, de 25 kg, o que pode parecer um exagero, mas foi muito útil nos fundeadouros nas ilhas Aleutas, com profundidades médias em torno de 30 metros, em que o uso de pequenas relações profundidade/comprimento de amarra eram consequência de uma desafortunada necessidade; como backup, uso uma CQR de 20 kg, que é bastante conveniente para ser manuseada e guardada, além de poder ser convenientemente presa à principal, em um arranjo para tempestades (veja a figura 1b); e, além disso, uso essa âncora para reposicionar o barco, sem o risco de furar o inflável durante essa operação. Além dessas duas, tenho uma âncora de almirantado desmontável, que raramente sente o gosto da água salgada e que é de utilidade questionável em fundos macios, pois a área das pás é bastante reduzida. Além disso, a amarra se enrosca nela com facilidade, em caso de mudanças de maré. Mas em alguns fundeadouros com fundo de cascalho e pedras, tais como o notório porto de Pago Pago, na Samoa Americana, é o único tipo de ferro que garante um bom fundeio. Um conselho, porém: esse tipo de âncora é bastante complicada para ser içada e deve sempre ser lançada com cabo e boia de arinque (veja a figura 2b).

Corrente e ferragens
As ferragens que conectam a corrente à âncora, apesar de vitais, são frequentemente negligenciadas. Tanto a manilha quanto o destorcedor devem ser escolhidos de fornecedores renomados e confiáveis. Use a manilha com o maior pino que ainda passe pelo elo da corrente, para minimizar o desgaste e a possibilidade de cisalhamento. Também é aconselhável travar o pino com arame específico para esse fim, ou então usar uma trava química, como por exemplo o trava roscas da Loctite – pessoalmente, prefiro esse método, mas que nem sempre está à mão. Como segurança adicional, bato uma punção no centro do pino. Quando for atarraxar a manilha, escolha o lado menos obstruído do suporte da âncora, para localizar a cabeça do pino. Em âncoras modernas, com furos ovais ao invés de redondos, o destorcedor pode travar se a força for aplicada antes do pino alcançar a extremidade do furo (veja figura 3a). Há inúmeros casos de destorcedores de fabricantes renomados que partiram ao meio por esse motivo. Na minha âncora Rocna, resolvi esse problema prensando um passador de bronze na extremidade anterior do furo oval, o que impede o destorcedor de ser tensionado no ângulo errado.

A discussão a respeito da amarra, se de corrente, mista ou apenas cabo é muito mais relativo ao tamanho, tipo de barco e equipamento de içamento do que de segurança. Durante uma circunavegação de treze anos, usei um sistema de cabo de náilon trançado com 20 m de corrente sem nenhum problema. Na época, não tinha guincho a bordo, mas quando passei de um barco de seis toneladas para um de nove e de uma idade de um par de décadas para muitas, acabei instalando um guincho elétrico de 1.200 W. Com esse arranjo, não há absolutamente nenhum motivo para não passar para uma amarra 100% de corrente, com as vantagens advindas do efeito caténário e a maior resistência à abrasão. Exagerar na espessura da corrente nem sempre traz benefícios.

A maior espessura traz consigo maior peso e maior volume que, às vezes, não têm como ser armazenados ou significam se contentar com uma amarra mais curta. Se o cálculo correto para seu caso requerer corrente de 5/16”, substituí-la por uma de 3/8” teoricamente aumenta o efeito catenário, mas, em caso extremo, isso acaba não acontecendo, pois nesse caso a corrente fica totalmente esticada, e o que vale é o escopo da profundidade/ comprimento da amarra. Um cabo de amortecimento de náilon torcido bem resistente, com comprimento entre 6 e 10 m, é a solução para os dias de vento forte. Como ele tem a capacidade de esticar cerca de 20% acima de seu comprimento máximo, amortece as forças de arrebatamento que incidem diretamente sobre a âncora.

Muitos comandantes utilizam um arranjo tipo arreio como cabo de amortecimento, ou seja, dois cabos amarrados nos cunhos do convés presos na corrente. No entanto, se os mesmos forem curtos e grossos (como tende a ser essa configuração) podem não fornecer o amortecimento desejado.

O importante a respeito de cabos de amortecimento é que eles transferem a carga do guincho (onde ela é indesejada) para os cunhos e o convés, que foram projetados para recebê-la.

Há vários tipos de corrente que podem ser utilizados como amarras, tais como as de elo longo, elo curto e elo curto calibrado, tanto de aço carbono galvanizado quanto de aço inoxidável.

As de aço inoxidável são mais usadas em segmentos curtos, quando em conjunto com cabos, por uma questão de custo.

Mais comumente, usamos correntes de aço carbono galvanizada e calibrada, com fator de segurança de 4 (cuja carga de ruptura é quatro vezes a carga de trabalho), necessária quando se utiliza guincho manual ou elétrico.

Quem navega por mares mais extremos pode considerar usar correntes de aço temperadas, ainda mais resistentes, mas deve estar sempre atento à eventual perda da têmpera. Considerando que navego em áreas extremas e a já mencionada perda do efeito catenário com a corrente esticada, acredito que o custo adicional de uma corrente temperada vale totalmente a pena. 

No entanto, toda corrente necessita de inspeções constantes. Deve ser verificado se há esticamento de elos e/ou corrosão. Anualmente, inspeciono a minha de ponta a ponta. No passado valia a pena regalvanizar uma corrente, caso se encontrasse pontos em que a proteção estivesse cedendo; porém, atualmente, devido ao alto custo do processo, provavelmente é melhor substituí-la. Em todo caso, se a decisão for a de refazer a galvanização, isso deverá ser feito antes que a corrosão reduza o diâmetro, mesmo que de um único elo, e deve ser feito por uma empresa especializada. 

O compartimento do ferro deve possuir espaço suficiente para a corrente, respeitando a altura mínima prescrita pelo fabricante do guincho, para que a corrente não acumule de forma incorreta e se enrosque na base do guincho. Além disso, deve possuir escoamento de água, para evitar que a corrente permaneça em contato com a água salgada, o que poderia acabar rapidamente com a camada de proteção da galvanização.

A corrente jamais deve ser presa diretamente na embarcação. Adicione um pedaço de cabo de náilon trançado entre o (parrudo) ponto de fixação no casco e o final da corrente, cujo comprimento deve ser suficiente para passar pelo guincho e alcançar o convés. Dessa forma, é possível capar o cabo em caso de emergência.

O fundeio
Vamos nos concentrar em como usar o conjunto amarra-ferro e fazer com que prenda sua embarcação no fundo com firmeza e segurança. A não ser que tenha que lançar o ferro em movimento – o que, às vezes, é necessário em fundeadouros superpopulados – o ideal é parar o barco no local em que se deseja lançar o ferro e, de preferência, contra o vento. Lance o ferro somente o suficiente para que chegue ao fundo. Deixe o barco ser empurrado para trás pelo vento, folgando a corrente na mesma medida do deslocamento. Assim, fica garantido que a corrente não acumulará em cima do ferro, o que pode fazer com que se enrosque. Quando tiver lançado corrente suficiente para cobrir três vezes a profundidade, comece a tensionar levemente a corrente. Assim, o ferro irá se posicionar para iniciar a sua jornada para dentro do fundo. Se puxar com muita força ou velocidade, é grande o risco do ferro ficar ricocheteando, ao invés de unhar o fundo. Quando perceber que o ferro unhou, engate a marcha a ré e exerça uma força considerável para assegurar que o ferro está cumprindo corretamente a sua função.

Mesmo que o ferro ceda um pouco, procedendo dessa forma obtém-se uma informação valiosa, que é a percepção de como está o fundo nesse local. Claro que, mesmo antes de lançar o ferro, o comandante prevenido escrutina o fundo com seu sonar para evitar áreas passíveis de enrosco. E evita sempre executar essa manobra “nas coxas”. Se o ferro não unhar firmemente o fundo ou não estiver na posição exata que deseja, refaça a manobra. Gastar 10 minutos a mais nesse momento garante algumas horas de sono a mais à noite.

Para escolher o local do fundeio, examine com olhar crítico o estado dos barcos ao seu redor. Veja se estão fundeados ou apoitados, pois isso fará uma grande diferença em eventuais giros devido a ventos ou correnteza. Veja se consegue identificar se os comandantes soltaram pouca o muita amarra. Se possível, descubra se os ventos ou correntezas seguem um padrão durante a noite. Faça um verdadeiro trabalho de detetive para identificar quem está com amarras muito finas ou desgastadas, quem não utilizou passa cabos ou quem está com o fundo cheio de algas. Se um barco foi negligenciado a ponto de ser considerado uma área de proteção ambiental, é grande a possibilidade da mesma falta de atenção ter sido dedicada também ao ferro e à amarra. Normalmente, são esses os causadores de problemas.

Profundidade/comprimento da amarra
Uma vez selecionado o fundeadouro ideal, determine a quantidade de amarra a ser utilizada. Se estiver sozinho no local, e com amplo espaço para girar, quanto mais amarra soltar, melhor. Mas um barco com tendência a caranguejar com vento preso a uma amarra fina de 100 m é o flagelo máster de qualquer fundeadouro.

A definição mais simples de escopo é a relação entre a profundidade da água e a quantidade de amarra de cabo ou de corrente utilizada para fundear. Para ser ainda mais exato, a profundidade deve considerar a altura da proa do barco e não esquecer a variação da maré. Pode parecer que não faz muita diferença até que um dia fundeie na Tierra del Fuego, em um local com profundidade de 3 m, utilizando 12 m de corrente (um escopo considerado seguro de 4:1). Só para descobrir, tarde demais, que uma maré de 13 metros fez com que seu barco ficasse à deriva durante a noite.

A regra de ouro do fundeio determina um escopo de 3:1 até 5:1 quando se fundeia utilizando somente corrente. Uma amarra mista, de cabo e corrente, requer um escopo mínimo de 7:1. Quanto maior for o escopo, maior a potência do ferro (e, também, maior o raio de giro), considerando que o fundo seja plano (conforme a figura 4a).

Se não houver outro jeito a não ser fundear onde o fundo tenha uma dada inclinação, como muitas vezes acontece em Vava’u, Tonga, é necessário aumentar o escopo (veja figura 4b). Adicionar outro ferro, assim como utilizar a amarra exclusivamente com corrente também ajudam a mitigar o problema, pelo efeito caténario.

 

Dica Mariner: Em casos extremos, no eixo do guincho, um cabo de amortecimento minimiza as cargas de pico provenientes das amarras com correntes e as transferem para as ferragens de convés, desenhadas para recebê-las.

Sempre atento
Em um mundo ideal, sempre fundearemos em um local amplo, sem ondas nem vizinhos, com um fundo de areia firme a uma profundidade de 6 m e uma leve brisa vinda do mar.

Infelizmente, a realidade muitas vezes é outra. O fundeadouro está muito populado, tem águas profundas e o fundo coalhado de estruturas, naturais ou não, em que o seu ferro acabará se enroscando. E às 2h da manhã, inevitavelmente, aquelas rajadas fortes virão do continente. Nessas condições, o melhor a fazer é postar um vigia. Alguém totalmente vestido, paramentado e alerta para observar os acontecimentos, com o motor previamente aquecido, pronto para dar a partida. O normal é que seja substituído em turnos, normalmente de 3 horas.

Da última vez que estive na Cidade do Cabo, os ventos terrais, chamados de Williwaws, eram tão inclementes que o ferro sozinho não dava conta de manter o barco no lugar. Precisamos usar múltiplos ferros e com muito sacrifício conseguimos chegar na encosta íngreme e amarramos o barco em pedras e tocos que nos pareciam firmes. Usamos todas as defensas a bordo para proteger o costado das pedras que ficavam ameaçadoramente próximas.

Tudo que se precisa saber a respeito de um fundeadouro está escrito na natureza. Basta saber interpretar os sinais. Chamo isso de “alfabetização natural”. Por exemplo, aprendemos a fundear baseado em cores. Se encontramos arbustos com galhos novos e uma folhagem bem verde e recente, fundeávamos o mais perto da costa possível, imaginando que o vento Katabático (ventos que se formam em encostas e sopram da terra para o mar; o mais famoso na Europa é o Mistral, formado no vale do Rhône e que sopra em direção ao Mediterrâneo) de mais de 100 nós não teria a capacidade de atingílas. Dito e feito. A cerca de 30 m de nosso barco, o vento atingia a superfície do mar com violência, criando uma superfície branca uniforme, enquanto no convés poderíamos até acender uma vela, de tão calmo. Leões-marinhos deitados em rochas indicavam águas profundas perto da costa e ausência de vento na região.

Por melhor que seja a sua apólice de seguros, ela só consegue reembolsar o custo do casco, muito depois de o fato ter ocorrido. Ela não consegue oferecer a você e à sua tripulação segurança em uma noite escura. O melhor (e mais barato) seguro ainda vem em forma de metal e amarras resistentes, não em forma de papel e tinta. Mas lembre-se: uma corrente só é tão resistente quanto o seu elo mais fraco, e o comandante da embarcação também é um elo desse sistema. Invista seu tempo em aprender e praticar a chamada “arte negra do fundeio”, e assim adquirir a habilidade de prender-se a qualquer tipo de fundo na imensidão azul de nosso planeta.

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