Lanchas

Como sobreviver a uma tempestade de raios durante a navegação

por Mike Telleria
Postado em 05 de Abril de 2018

Poderosas, perigosas, imprevisíveis — todos esses adjetivos são comumente usados para descrever as tempestades de raios

(Foto: arquivo/Mariner Brasil)Poderosas, perigosas, imprevisíveis — todos esses adjetivos são comumente usados para descrever as tempestades de raios. Um zumbido nos ouvidos ou alguns eletrônicos queimados pode ser considerado sorte. Azar, mesmo, é ter o casco danificado, o barco indo a pique ou, pior, ser mortalmente ferido por este fenômeno da natureza.

Muitos condutores gostam de pensar que, em uma situação dessas, basta velocidade para simplesmente escapar ileso; ou que, se navegarem apenas em dias de céu limpo e ensolarados, estarão seguros. Tais atitudes talvez sejam corroboradas pelas informações divulgadas pela seguradora norte-americana BoatU.S., que afirma que há  uma chance em mil de um barco ser atingido durante uma tempestade de raios. Então não há problemas, certo?

Errado. Motores podem apresentar mau funcionamento, e manhãs ensolaradas podem virar tardes escuras e ameaçadoras. Se o seu barco é o único na área durante uma tempestade de raios, as chances de ser atingido são muito maiores, deixando você e sua tripulação vulneráveis a milhões de volts caindo do céu. Certos estaleiros podem garantir algum nível de proteção a um barco, mas a prevenção começa com condutores informados e preparados para entrar em ação em uma eventualidade como essa. Você deve saber as seguintes técnicas e estratégias.

Timing
A estratégia de navegar apenas em dias ensolarados, sem nuvens, pode funcionar bem em lugares como Idaho e Califórnia, mas isso significa nunca usar o barco em locais como Flórida, Louisiana e boa parte do meio-oeste norte-americano. Por exemplo: algumas regiões da Flórida — também conhecida como “Sunshine State”, ou estado ensolarado — tem de 70 a 80 dias de tempestade por ano, sendo que, em alguns lugares, essa marca passa dos 100.

Para tomar uma decisão responsável e evitar a intempérie, o condutor deve consultar os boletins meteorológicos via rádio VHF, internet e televisão. Contudo, as previsões de curto prazo podem ser realmente exitosas ao indicar tempestades maiores, mas há a possibilidade de as pequenas, localizadas, serem ignoradas. Assim, saber “ler” o tempo por conta própria é uma vantagem.

Tempestades de raios normalmente ocorrem durante a tarde (o estado da Flórida, nos EUA, estima que 70% delas aconteçam entre o meio-dia e as 18h). Uma grande quantidade de nuvens brancas que se eleva até um topo plano, semelhante ao de uma bigorna, é um bom indício de que é hora de procurar abrigo o mais rápido possível — isso se a tempestade estiver a uma distância razoável (a maioria tem cerca de 15 milhas de diâmetro e pode atingir níveis perigosos em menos de 30 minutos). Se há raios e trovões, conte os segundos entre o clarão e o barulho, e divida-os por cinco — o resultado fornecerá uma estimativa aproximada, em milhas, de quão longe a tempestade está.

Uma tempestade que se forma diretamente sobre sua cabeça pode ter, a princípio, um aspecto menos óbvio. Aquelas nuvens brancas que proporcionavam uma sombra agradável há alguns momentos pode assumir uma tonalidade cinza ameaçadora, e, se a chuva começar a cair e o vento a uivar (ou, pior ainda, se houver relâmpagos e trovões), será a hora de navegar loucamente até a marina, se houver uma por perto, e se abrigar. É como diz o Serviço Nacional de Meteorologia norte-americano: “Quando o trovão ribomba, vá para dentro!”. Se estiver em alto-mar ou distante da costa, leve as dicas abaixo em consideração.

E agora?
Antes de compartilhar suas miraculosas e angustiantes fábulas de sobrevivência e destruição, condutores de barcos atingidos por raios sempre começam com “Eu fui pego nessa tempestade...”. Mesmo que ser pego por uma tempestade não seja algo totalmente evitável, há muita coisa que pode ser feita para minimizar a chance de ser atingido por um raio, ou mesmo diminuir os danos, caso isso aconteça.  

Todos nós aprendemos, na escola, que os raios incidem sobre os pontos mais altos. Estes, em um barco, podem ser um mastro, uma antena, uma capota, varas de pescar fixadas na vertical ou mesmo a pessoa mais alta a bordo. Se possível, encontre uma área protegida do vento e jogue a âncora. Se o barco for cabinado, as pessoas devem se dirigir diretamente para dentro e ficar longe de objetos metálicos, tomadas e eletrodomésticos (também é uma boa ideia vestir o colete salva-vidas). A descarga elétrica pode saltar de um objeto de metal para outros objetos — e até mesmo seres humanos —, conforme procura seu caminho para a água.

Recolher antenas, torres, varas e “outriggers” também é recomendado, a menos que eles sejam parte de um sistema de proteção contra raios. Alguns condutores desconectam os cabos de força de suas antenas e outros eletrônicos, os quais são frequentemente danificados ou destruídos como consequência de um raio que incida sobre ou próximo ao barco.

Em nenhuma circunstância devemos usar o rádio VHF durante uma tempestade de raios, a menos que seja uma emergência (os portáteis estão liberados). Também não devemos segurar dois objetos de metal, como um volante e um corrimão — isso pode ser mortal. Alguns condutores optam por operar o volante usando uma colher de pau, enquanto mantém a outra mão no bolso; outros preferem usar luvas de borracha.

Um barco aberto, como os do tipo “runabout”, são os mais perigosos para seres humanos durante uma tempestade de raios. Isso porque, neste caso, você é o ponto mais alto e mais suscetível a ser atingido. Se a costa estiver distante, o conselho é fundear, remover acessórios de metal (como bricos e anéis), colocar o colete salva-vidas e agachar no centro do barco. Definitivamente, fique longe da água e guarde as varas de pescar.

Se tudo correr bem, a tempestade passará em 20 ou 30 minutos. O melhor é esperar até 30 minutos desde o último trovão para retomar as atividades.  

Atingido!
Ter o melhor sistema de proteção contra raios instalado não garante totalmente que o barco não será atingido por um relâmpago. Caso isso aconteça, o checklist abaixo deve ser colocado em prática imediatamente.

1 – Em primeiro lugar, verifique se há pessoas inconscientes ou feridas. Se elas estiverem se movendo e respirando, provavelmente ficarão bem. Se estiverem inconscientes e sem sinais de pulsto e/ou respiração, faça uma ressuscitação cardiopulmonar imediatamente.

2 – Enquanto isso, peça para alguém verificar se há água nos porões. É raro, mas um raio pode fazer um transdutor atingir o casco — ou até mesmo abrir um buraco. Tape o buraco, se for o caso, e ative as bombas do porão — o que for possível para manter o barco flutuando. Um pedido de socorro via VHF é inevitável se a situação for realmente feia, e, caso o rádio tenha queimado, é hora de usar o sinalizador.

Se não houver feridos e nenhum buraco ou vazamento, continue esperando. Uma vez que o perigo passar, cheque o funcionamento do motor e de todos os eletrônicos. Mesmo que caia nas proximidades, um raio pode queimá-los — inclusive a unidade de controle do motor.

Eletrônicos danificados devem ser avaliados e consertados. Mesmo os que saírem ilesos após uma tempestade de raios, sem nenhum dano aparente, precisam ser verificados por um profissional. Pequenos danos no casco podem resultar em vazamentos lentos e todos os tipos de problemas elétricos podem surgir — às vezes, muito mais tarde. É melhor detectar esses problemas imediatamente e passar essas informações para a seguradora. 

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