Mergulho

Mergulho em cavernas

por Brooke Morton
Postado em 11 de Julho de 2018

Como são feitos os treinamentos para aqueles que desejam mergulhar em cavernas

Iluminar o desconhecido – em um mergulho em uma caverna, nada traduz tão bem as palavras aventura e exploração como essa simples ação. Não é só isso que faz com que os mergulhadores fiquem viciados nessa modalidade. É nesse esporte que, todos os anos, ocorrem descobertas incríveis, e há muito mais a ser revelado. Mesmo que sua intenção não seja se afastar muito de onde a luz do sol alcança, considerar um treinamento específico vai além de querer conquistar de novos recordes. Esses cursos proporcionam a seus participantes alcançar um grau de confiança física e mental inimaginável. 

Mergulho em cavernas
cavediving.com

“Já tive todo quanto é tipo de aluno, desde pessoas com menos de 25 mergulhos até instrutores avançados em mergulhos de alta profundidade” conta Johnny Richards, quando perguntado sobre o público de seu curso de mergulho em cavernas. 

Uma coisa é certa: todos precisam reaprender seus conceitos de flutuabilidade, pois as diferenças entre o mergulho em mar aberto e em cavernas é muito grande.

“Quando se mergulha em mar aberto, a margem de erro é maior”, diz Richards. “Uma variação  de um a dois metros nessas condições não faz muita diferença, mas em uma caverna pode ser a diferença entre passar e bater no chão ou no teto.” 

Para fixar bem a nova condição de flutuabilidade, Richards promove seus treinamentos no sistema de cavernas do norte da Florida, Estados Unidos. Além dos atributos normais, elas possuem uma dificuldade adicional, que permite que seus alunos se aprimorem ainda mais: as correntezas. “As correntezas afetam todos os aspectos de um mergulho, tais como potência, flutuabilidade e trim”, afirma Richards. 

Sua “sala de aula” predileta é a Devil’s Den , algo como “Antro do Diabo”, que fica em Williston, Flórida. Atravessam essa caverna, de mais de 10 km de extensão, estonteantes 160 milhões de litros de água por dia. “Aprenda a mergulhar em condições difíceis e qualquer outro mergulho será um passeio”, afirma Richards. “Quem esteve em Devil’s Den tem toda a condição de mergulhar em qualquer caverna do mundo.” 

Naquele ambiente, o mergulhador aprende a se desfazer de um hábito desnecessário: bater excessivamente as pernas. E, na volta, enfrenta um outro desafio. “Com a correnteza a seu favor, o controle da flutuabilidade tem que ser feito com antecipação”, conta Richards. “Quando nos aproximamos da saída da caverna, é preciso ajustar a flutuabilidade antes da mudança de profundidade, pois se a deixarmos neutra, a correnteza acaba nos empurrando repentinamente para uma rápida ascendente.” 

Antes de se aventurar pela Devil’s Den, os alunos são levados para outra caverna, que fica a cerca de uma hora ao norte, chamada de Ginnie Springs,  ou “Fonte da Ginnie”, outra caverna com forte correnteza (cerca de 135 milhões de litros por dia) e com uma vantagem: o fundo é de areia grossa. “Via de regra, cavernas com alto fluxo de água têm pouco lodo no fundo”, afirma Richards. 

Para os novatos do mergulho em cavernas, sempre culpados por baterem demais as pernas, significa que seu fanatismo não resultará numa névoa enlameada e consequente perda de visibilidade. No entanto, há lugares específicos em que se treina a perda de visibilidade, para que os alunos possam sentir como é. Afinal de contas, também é possível aprender errando. 

Segundo Richards, “esse não é um curso em que a gente imagina que os alunos venham e saibam exatamente o que estão fazendo e, portanto, muitos erros podem acontecer”.

Mergulho em cavernas avançado
cavetrainingmexico.com

Alessandra Figari conta que graduar um aluno em seu curso de mergulho avançado em cavernas equivale a soltar um turista em uma loja de cristais em Murano. Se forem aprovados segundo seus elevados critérios, ela tem certeza de que poderão se aproximar de formações submarinas delicadas como uma peça de cristal soprada por um artesão veneziano. 

Para chegar lá, os alunos começam pelas cavernas mais simples da Riviera Maya que, mesmo assim, não são desprovidas de beleza natural. Um de seus lugares favoritos para o treinamento avançado é chamado de Chikin Ha. Os alunos passam por duas lagunas iluminadas por largos fachos de luz natural e, na sequência, encontram a escuridão. “Após passarem por duas imensas formações rochosas, a sensação de estar embaixo da terra é onipresente”, conta Alessandra. “É como se estivéssemos em uma catedral gótica, admirando cada uma de suas peças artísticas.” O programa de treinamento nesse local inclui seguir uma linha em condições de visibilidade zero, simular um cenário de mergulhador perdido e partilhar ar comprimido em ambiente subterrâneo. 

“Coloco os alunos para partilhar o ar no ponto mais baixo da caverna”, diz Alessandra. “Dessa forma trabalhamos o autocontrole em vários níveis de stress”. Se o caminho de entrada é o mesmo que o de saída, e algo acontece com 40 minutos de mergulho, é preciso ter a consciência de que os mesmos 40 minutos serão necessários para sair. De acordo com Alessandra, ”a única coisa que pode garantir a saída em segurança é como o aluno lida com uma emergência”. “O curso avançado de mergulho em cavernas ensina como administrar emoções e manter o controle da mente em situações críticas.” 

A teoria por trás disso é basicamente a mesma que em qualquer curso de mergulho. No fundo - sem trocadilho - , tudo se resume à respiração. 

“Se respirarmos de forma incorreta, não conseguimos manter o controle da mente e é aí que começam os grandes problemas”, ensina Alessandra. 

Uma vez que aprendem a dominar as técnicas ensinadas, os alunos “recebem as chaves” de lugares ainda mais fascinantes, tais como a caverna Nohoch, por exemplo. Dentro dela, passagens apertadas são emolduradas com formações brancas de rara beleza. “É tudo tão delicado que nos sentimos compelidos a não respirar, para não gerar bolhas capazes de quebrar alguma coisa”, diz Alessandra. Mas não se preocupem: se houvesse a mínima chance disso ocorrer, ela garante que não levaria ninguém até lá. 

Mergulho em etapas
dr.ss.com

“Mergulhar em cavernas tem a ver com expandir sua zona de conforto: um passo de cada vez”, diz Patrick Widman, instrutor de mergulho em cavernas avançado, cuja base fica na República Dominicana. 

Os graduados em mergulho em cavernas podem utilizar um terço de sua capacidade de ar para explorá-las. Mas quem obtém o certificado de mergulho em caverna em etapas, aprende como expandir o tempo de exploração por meio da inclusão de mais cilindros de mergulho. 

O curso inclui trabalho em equipe e depósito e recuperação de cilindros em condições de visibilidade zero, o que pode ocorrer se um cilindro for derrubado em um chão arenoso bem solto. Isso também ocorre se um membro da equipe esquecer de fechar completamente a válvula e o fluxo de ar gerado derrubar sedimentos do teto da caverna. 

Como todos os cursos de mergulho, esse também foca em fortalecer a confiança do mergulhador, especialmente em situações chamadas de “estresse da distância”. “É quando a mente do mergulhador fica lembrando que ele está a muitos quilômetros de casa”, de acordo com Patrick. “Esse stress te acompanha sempre, mesmo após centenas ou até milhares de mergulhos”, acrescenta. “Não é uma questão de se, e sim de quando vai acontecer novamente.”

Patrick ministra seu curso de mergulho em etapas em duas cavernas, Cueva Taina e El Dudu. Cueva Taina, que fica perto do aeroporto de Santo Domingo, apresenta aos alunos um haloclina seguido de várias câmaras de paredes brancas, com colunas e estalactites. El Dudu fica próxima à cidade de Cabrera, a duas horas de Puerto Plata, na costa noroeste do país. O acesso se dá através de uma abertura gigante, e a maioria da exploração ocorre a uma profundidade de 6m, passando por águas de cores exóticas, paredes coloridas com depósitos tônicos e se alternando com cavernas repletas de criaturas espeleológicas, tais como morcegos, escorpiões e tarântulas. 

Completadas essa etapas, os alunos são levados ao manancial El Toro, que é a mais longa caverna do país e que requer o mergulho em etapas para ser explorada em toda sua extensão. 

O estresse começa bem antes. Para chegar à sua entrada — uma enorme caverna com três raízes gigantescas penduradas no teto — é preciso fazer uma caminhada de meia hora, seguida de uma descida vertical de cerca de 40 metros. 

A cada avanço no seu sistema de cavernas, novas camadas e ambientes são desvendados e os alunos são continuamente monitorados em relação ao stress de distância.

“Há um túnel em que bactérias conferem às suas paredes um verde opala”, conta Patrick. “Até a NASA enviou seus cientistas para analisá-la.”

E, como no livro Alice no País das Maravilhas, os mergulhadores devem se preparar para se sentirem minúsculos em um um lugar gigante ou vice-versa. “A sensação de estar em uma câmara submersa em que poderia passar um avião é indescritível.”

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