Mergulho

Busca por navio russo do século 19 vira pesadelo

por Bogdana Vaschenko/Fotos por Viktor Lyagushkin
Postado em 09 de Janeiro de 2018

O relato de um time de arqueólogos subaquáticos e um fotógrafo

As letras do alfabeto cirílico significam OlegUm pequeno barco de mergulho deixa o porto localizado em São Petersburgo, na Rússia, com destino à pequena Ilha de Hogland (“Terras Altas”, em sueco), no meio do Mar Báltico. A bordo da embarcação de 69 pés encontram-se o capitão, um tripulante, um professor, três arqueólogos marinhos, um fotógrafo submarino e uma jornalista sortuda: eu.

Conseguir realizar qualquer expedição arqueológica submarina na Rússia é por si só um grande feito, pois a pesquisa submarina aqui é muito cara e requer toneladas de autorizações, nem sempre fáceis de conseguir — tanto para a pesquisa em si, quanto para cada um dos participantes; caronas e “pescoçantes” normalmente não são bem-vindos. Estou bem preocupado e com medo de não conseguir cumprir a minha tarefa, que ao mesmo tempo é a realização de um sonho: visitar um naufrágio histórico. E não é um naufrágio qualquer. É a fragata Oleg, o navio almirante da Marinha Imperial russa. Apesar de ser um navio majestoso, a fragata Oleg afundou em circunstâncias bastante tolas.

Durante uma parada militar na presença de sua Majestade, o Imperador Alexandre II, o Oleg acidentalmente colidiu com outro vaso de guerra. Em menos de 15 minutos, a jóia da coroa estava encalhada no fundo do mar perto da Ilha de Hogland, a mais de 6o metros de profundidade, e apenas a ponta dos mastros restou para fora d’água. Felizmente, a tripulação pôde abandonar o navio de forma ordeira e coordenada, de sorte que quase nenhuma alma se perdeu. Entre os poucos mortos estava o jovem soldado cuja tarefa era a de proteger o cofre de bordo. Ele certamente percebeu que o navio estava indo a pique, mas não ousou deixar seu posto sem o devido comando. Atualmente, o Oleg é um paraíso para os arqueólogos marinhos, uma embarcação do século XIX intacta e bem preservada.
Então, qual o motivo da preocupação? O Báltico é considerado um dos mares mais inóspitos do mundo para a atividade de mergulho. Apesar de ter alguma experiência em mergulhar em águas gélidas, sei que não vai ser um passeio no parque. Você deve estar pensando que qualquer pessoa adoraria estar emmeu lugar, com tantos objetos de ouro e pedras preciosas espalhadas pelo fundo mar. Mas, se for acreditar em tudo que dizem, acreditará também que arqueólogos marinhos encontram tesouros e champanhes valiosíssimos com frequência. Ledo engano!

Não dá para ter inveja dos que mergulham no Báltico. A temperatura no fundo raramente passa dos 3 ºC, e a visibilidade também não ajuda. Poder enxergar de 5 a 7 metros é considerado uma visibilidade excelente. Uma lanterna submarina de grande potência fica reduzida a uma pequena mancha amarela, e a maioria dos mergulhadores são experts em enxergar  pelo toque. Será que encontram artefatos? Sim, garrafas, cerâmicas e similares são encontrados de vez em quando e muitas vezes contribuem de forma decisiva para a identificação do naufrágio. É só no cinema que o mocinho casualmente se vira e... voilà, aparece em letras garrafais, fundidas em bronze polido, o nome do navio em questão. Normalmente, um naufrágio se parece mais com um amontoado de tábuas de madeira. Um amontoado de madeira de valor incalculável, tanto em termos culturais, quanto históricos.

Só os mais destemidos encontram coragem para penetrar nos destroços. Os cascos normalmente são estruturas bastante frágeis e não raro desmoronam em cima desses mergulhadores. Suas entranhas estão cobertas de lama solta. Um movimento em falso e a visibilidade, que já não é boa, some completamente. O limo cobre o que sobrou do que se assemelha a um teto no casco. Segure o fôlego e talvez tenha a sorte de ver alguma coisa interessante. Expire com um pouco mais de força e o dia se torna noite instantaneamente e a saída se complica de forma exponencial.

Viagem no tempo
Voltando ao RC-311. O fotógrafo Viktor Lyagushkin (que por acaso também é meu marido) e eu ocupamos uma cabine ampla; porém, seu equipamento ocupa grande parte do espaço. Ao pé da escada metálica e escorregadia, estão armazenados os grandes cilindros de gás para mergulho. O piso da cabine está coberta por fios e carregadores para o aparato de iluminação, além de outros equipamentos necessários para capturar boas imagens.

Na parede atrás do beliche do Vitya, riscos feitos com caneta hidrocor contabilizam os dias passados na expedição. Normalmente, é possível chegar em Hogland em “apenas" 12 horas, mas uma tempestade nos obrigou a dividir o percurso em dois e estou bastante mareada. Quando chegamos na ilha, fundeamos em uma baía bem abrigada, mas isso é só o começo. A tempestade é inclemente por três dias, e mergulhar está fora de questão. A nossa equipe está sempre alerta, pronta para partir a qualquer momento. Quando não está na ponte de comando ouvindo as previsões de tempo, nosso capitão se dedica a fazer a manutenção no motor a Diesel da embarcação. O arqueólogo Igor Galaida se apoderou da cozinha, enquanto seu colega Roman Prokhorov, um homem de sorriso farto, se dedica a cuidar do compressor e dos equipamentos de mergulho. Viktor cuida de sua parafernália fotográfica enquanto acende um cigarro após o outro. Na manha do quarto dia, finalmente, o tempo melhora e colocamos a expedição novamente em movimento. Vamos simplesmente mergulhar no Oleg! Nos dividimos em dois grupos. Os arqueólogos vão inspecionar a fragata e avaliar as condições gerais. Eu fui designada assistente de Vitya. Ele me explica em detalhes o que vamos fazer e, ao final, me passa uma lanterna Ikelite que mais se parece com um canhão de um filme japonês antigo. Começamos, então, a preparar o equipamento para o mergulho. Dois cilindros nas costas e um lateral; outro com oxigênio estará preparado embaixo do barco, pois será uma empreitada profunda e longa. Equipados desse jeito, mais parecemos um tanque da Primeira Guerra Mundial, de tão pesados e desajeitados. Salto n’água segurando a minha máscara e o regulador. Duas ou três batidas com o pé e alcanço o cabo que leva ao fundo. A aproximadamente 5 m, verifico novamente meu equipamento. Vitya se aproxima e me pergunta se está tudo ok. “Ok”, respondo. Ele sinaliza para descermos e começamos uma longa descendente. O convés aparece embaixo de mim repentinamente.

Da escuridão, surge um enorme guincho de âncora de bronze, ao qual o RC-311 está preso por meio do cabo de descida. Olho à minha volta, mas a água está tão turva que começo a achar que estamos perdendo nosso tempo — certamente não será possível tirar fotos ou explorar a fragata nessas condições. Imagine-se em uma sala escura, recheada de objetos, e a única coisa que tem para iluminá-los é um apontador laser. “por ali”, aponta Vitya, e logo o sigo, com receio de perder o contato. Vamos de um ponto ao outro, seguindo seus comandos. Só depois da terceira parada é que começo a projetar a imagem do todo em minha cabeça. Canhões enormes, com a boca mais larga que meu braço, repousam impávidos em seus berços de madeira. Uma passagem graciosa em arco leva à cabine do almirante, passando pela ponte de comando de dois andares e sua roda de leme dupla. Está tudo incrivelmente bem preservado, muito real, tangível e separado de mim por uma fina pátina histórica. Parece que posso sentir os comandos serem proferidos, as velas ao vento e o mar passando por baixo da quilha da fragata.

Enquanto tiramos as fotos, os arqueólogos recolhem artefatos comissionados pelo Kronstadt Maritime Museum, e que são acondicionados em caixas especiais. Depois são colocados em uma rede que é içada a bordo do barco de mergulho. Enquanto Igor recolhe os artefatos, Roman anota em uma prancheta uma descrição e onde foram encontrados. Vejo o pessoal acenando para nós e, a seguir, entrando na cabine do almirante. Passando por uma porção do costado, de repente vejo escrito em grandes letras de bronze: Oleg. Esfrego as letras com minha luva grossa de borracha. É incrível como é fina a camada depositada ao longo de tantos anos, e é como se, ao retirar o limo, me transportasse para outro século. As bolhas saindo do regulador de Vitya trazem-me de volta à realidade. Estava sonhando, e esqueci que a minha principal tarefa nesse momento é a de assisti-lo em seu trabalho de fotógrafo.

O tempo do mergulho parece curto, mas meu computador indica que está na hora de retornar. Subimos devagar, fazendo todas as paradas, a água ficando mais clara conforme nos aproximamos da superfície. Finalmente chegamos à marca de 6 m, a última estação de descompressão. Vitya aproveita o tempo para examinar as fotos clicadas, através da pequena janela atrás da caixa estanque da máquina; está que não se aguenta de vontade de descarregar todas em seu computador. Uso o meu tempo para repassar a experiência na fragata e tento descobrir o que me deixou tão empolgada.

Quando criança, sempre me imaginei como nobre pirata, tal qual o Capitão Blood, protagonizado por Errol Flynn. Aprendi o nome de mastros e velas e passava horas estudando fotografias de antigos veleiros. Mesmo em sonho eu sabia que era só a minha imaginação. O desejo de vivenciar essa realidade só fazia crescer em minha mente. Aos 35 anos, em uma parada de descompressão, me dei conta de que o meu sonho de criança se tornara realidade no fundo do Mar Báltico.

Sob o feitiço de Oleg
No dia seguinte, nova mudança no tempo. Pudemos trabalhar em outros naufrágios na ilha, mas não no Oleg. Igor e Roman discutem como retirar a boia da fragata, se não pudermos voltar a ela nessa expedição. Com um sorriso, o capitão Sinitsyn desce da ponte de comando para encerrar a discussão. A guarda costeira acaba de destruir a boia, confundida com barco espião automático inimigo.

Talvez fosse um sinal de que a nossa expedição ao Oleg devia ser finalizada. O Mar Báltico permite que trabalhemos em outros naufrágios também bastante interessantes na região. Os mergulhos são diferentes e não menos perigosos. Na escuna dinamarquesa Louise, Roman se enroscou em redes na ascendente; por sorte, Igor estava lá para ajudá-lo a se livrar do perigo. No barco contrabandista alemão Archangel Gabriel , que foi a pique em 1724, Igor encontra barris com farinha e sebo para fabricação de velas. Vitya e eu nos perdemos no “Sueco”, uma vítima sem nome da batalha de Vyborg, em 1790. Não encontramos nenhum tesouro. (Roman e Igor confidenciam que somente uma vez em dez anos de mergulho encontraram garrafas de bebidas. Uma garrafa de champanhe Moët & Chandon foi encontrada na cabine do almirante do vaso de guerra Gangut. Era do tipo doce, o preferido pela corte russa, à época. Quando terminaram de contar a estória, estava com inveja, mesmo que prefira Brandy a vinho espumante).

Na última semana da expedição, tenho um sonho. O Imperador Alexandre II está no convés do RC-311, inspecionando uma parada de navios da frota do Báltico. Vejo o Oleg, que se encontra incrivelmente próximo, e em toda a sua pompa, majestoso, com todo o pano. Sem reduzir a velocidade, ele começa a submergir, como um submarino. Estou no convés da  fragata, afundando com ela. Peixes nadam tranquilamente à minha volta e há moças dançando no convés e bebendo champanhe Moët & Chandon no gargalo, exclamando: “Nossa, como é doce!”. Sinto um desejo incontrolável de sentir o gosto da bebida quando, de repente, aparece Igor gritando: “a farinha e o sebo nos barris estão molhados”. Todos correm para o enorme canhão de bronze no convés, onde Vitya aguarda sentado, dando risadas. Ele me passa uma garrafa de champanhe e, num tom conspiratório,pergunta: “Você então agora entende, minha flor, porque o Czar deve ser chamado de Vladimir Vladimirovich? Porque ele é o nosso Presidente!”. O canhão em que Vitya está sentado se transforma em uma imensa boia e explode, e eu acordo banhada em suor.

Vitya está em seu beliche, fumando tranquilamente. Na escada de nossa cabine há homens em uniformes. Eles observam o entorno com olhar enfastiado e logo perguntam: “Há quanto tempo estão aqui?”; “Cinquenta e dois dias ”responde Vitya, calmamente apontando para as marcas na parede, atrás de seu beliche. O agentes de fronteira se dão por satisfeitos e, na saída, um deles tropeça num cilindro de gás, que produz um silvo alto. “O que é isso?”. “Tanques de oxigênio. Não esquentem a cabeça, a válvula está defeituosa e, de vez em quando, isso acontece…”. Com o olhar aterrorizado fixado na brasa do cigarro de Vitya, ele empalidece e se retira apressado. Levanto e fecho a válvula — é um tanque de hélio — e anoto para mim mesma que, às vezes, fumar na cama pode ser algo bom.

Epílogo
Meu sonho acabou sendo profético. Nem fiquei muito surpresa ao ver na TV, alguns meses mais tarde, que o presidente Vladimir Vladimirovich Putin, um mergulhador, se lançou do submarino C-Explorer-5 no Mar Báltico para a fragata Oleg. “O navio almirante do Imperador Alexandre II, a maior embarcação de madeira a repousar no fundo do Mar Báltico.”

“De acordo com o Presidente”, diz a reportagem “em seu mergulho, ele caminhou no convés do naufrágio, viu o nome na popa do barco e apreciou seus canhões. Ele disse também que a fragata está em condições de conservação surpreendentemente boas. O Presidente reforçou que o mergulho, ao invés de infligir medo, ao contrário, foi muito interessante. Perguntado se procurou por tesouros, respondeu que isso não era seu objetivo, que deixaria isso para os jornalistas”.

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