Mergulho

As vantagens e desvantagens de usar um rebreather para mergulhar

por Eric Michael
Postado em 15 de Março de 2016

O respirador de circuito fechado pode mudar o modo como você curte o mundo subaquático

Tudo mudou. os reflexos e músculos treinados durante décadas de mergulhos estão confusos, pois um puxão curto na válvula em minha boca deveria ter fornecido um jato comprimido de ar frio e, ao invés disso, nada acontece. luto contra um sentimento de pânico e um reflexo instantâneo para me catapultar em direção à superfície e faço uma pausa para me restabelecer e lembrar das palavras de meu instrutor: “puxe com força e confie no equipamento”. Faço uma nova tentativa, dessa vez mais vigorosa e, de repente, ouço o regulador atrás de minha orelha direita disparar e liberar um fluxo de gás morno e úmido que inunda meus pulmões, satisfazendo o seu clamor por oxigênio. enquanto o sistema tratava de preparar mais uma descarga, aproveito o tempo para me aclimatar e sentir o coração desacelerar. E é quando passo a apreciar um dos maiores benefícios que o sistema rebreather traz ao mergulho autônomo: o silêncio. As demais vantagens do sistema de circuito fechado ficarão evidentes durante o curso de mergulho e a certificação mCCR (manual Closed Circuit rebreather ou rebreather de Circuito Fechado manual) usando o equipamento Spirit LTE da Kiss. A apenas 1,2 m da superfície do mar e sobre um banco de areia na ensolarada ilha de  Gran Cayman estou aprendendo que operar o Kiss é uma questão de manter a mente aberta e ter fé na física.

Confesso que sempre invejei os mergulhadores com equipamentos rebreather. Além de não encontrá-los na superfície durante a pausa para troca de cilindros e eles só voltarem a bordo depois de termos acabado com nosso segundo cilindro, o equipamento deles parecia ser muito mais bacana que o meu. esse pessoal vivia elencando as vantagens de seus sistemas: respirar sem soltar bolhas, mergulhos com duração infinitamente maiores e um fornecimento quase ilimitado de ar morno e úmido. mesmo assim uma serie de razões fez com que nunca antes tivesse me convertido ao seu uso: muito caro, muito complicado e muito arriscado. no entanto, a evolução nos sistemas rebreather para uso recreativo foi fazendo com que passasse a me interessar mais pelo tema. Fiz alguns mergulhos de teste em piscina em eventos das associações de mergulho autônomo demA e pAdi e, quando surgiu a oportunidade de me certificar com um equipamento CCR da Kiss durante o Focus, um evento anual dos entusiastas de sistemas fechados e seus fotógrafos, que aconteceu no Cobalt Coast Resort, na ilha Grand Cayman, não hesitei. o fato de a divetech, a operadora local de mergulho, ser especializada em mergulho rebreather, os picos de mergulho locais e as condições ideais do mar da Gran Cayman deram-me o empurrãozinho que faltava para fazer um treinamento de imersão (sem trocadilho!).

O primeiro encontro com meu instrutor, Doug Ebersole, um cardiologista de Lakeland, na Flórida, defensor ardoroso do sistema CCR, não poderia deixar de ser mais enigmático. Após cumprimentar-me com um vigoroso aperto de mão,  fitando-me nos olhos diz: “sua vida está prestes a mudar para sempre.”

Durante os três primeiros dias do curso dedico-me a conhecer o sistema através de inúmeras montagens e desmontagens da unidade, faço a sua limpeza e soluciono problemas comuns, tudo em terra firme.

Além disso, frequento aulas teóricas em que aprendo os fundamentos da tecnologia CCR, a fisiologia associada ao mergulho rebreather e os conhecimentos teóricos do mergulho avançado com uso de Nitrox. O próximo passo será testar esses conhecimentos na prática, em seis mergulhos com uma duração total de aproximadamente 500 minutos (isso mesmo: 500 minutos em apenas seis mergulhos; faça as contas…). O objetivo será o de me familiarizar com o equipamento e de aprender a administrar qualquer situação de emergência que possa ocorrer. Logo no início descobri que o sistema é bem menos complicado do que eu imaginava, se bem que mais complexo do que simplesmente montar a válvula primária em um cilindro comum. A montagem de um equipamento CCR requer cerca de 10 minutos e é de fundamental importância que se use um check list durante o processo.

Desenvolvida para ser simples, a unidade utiliza componentes mecânicos para controlar o fluxo de o2 ao circuito de gás. Um computador monitora todos os dados da operação, incluindo profundidade, tempo de mergulho e, o mais importante, os níveis de PO2. Se o controle, seja ele mecânico, seja eletrônico, falhar, o mergulhador só precisa acionar uma chave de emergência e mudar para o modo de circuito aberto emergencial e retornar à superfície. É um método surpreendentemente simples e efetivo para uma máquina complexa.

Na água, o aprendizado é bastante rápido. Equipado com um CCR e um cilindro de 80 polegadas cúbicas, mergulho nas águas mornas de Gran Cayman. O primeiro deverá ser raso, não passando de 10 m de profundidade. A tarefa mais difícil é administrar a flutuação. Como o circuito é fechado e o volume de gás, constante, fazer pequenos ajustes inalando ou exalando gás, como nos equipamentos de circuito aberto, é impossível. Por 15 minutos fico ricocheteando no fundo, até conseguir manter-me nivelado. É muito frustrante ter treinado o equilíbrio durante anos a fio e, de repente, ter de reaprender tudo de novo. Mas, uma vez que a transição é feita, um outro mundo submarino se descortina. Só ouço a minha própria respiração e os sons provenientes dos habitantes do recife que soam mais alto do que nunca. Ebersole me observa atentamente e, de tempos em tempos, vem a mim para testar as minhas habilidades em resolver problemas (que fazer se o equipamento falha, como fazer uma subida de emergência, etc...). Afora isso, flano eufórico por aproximadamente duas horas, observando sistematicamente os níveis de PO2 - minha única obrigação técnica durante o mergulho.

Durante os próximos três dias visitaremos os melhores e mais famosos picos de mergulho de Gran Cayman, tais como a Black Forest, Lemon Wall, Big Tunnels e Lighthouse Point. Já estive nesses lugares antes, mas o rebreather faz com que a experiência ganhe novas e mais íntimas perspectivas, devido aos tempos de fundo mais extensos (quase sempre acima de 2 horas) mesmo depois de ter descido a mais de 40 metros. É uma bênção poder ficar explorando os recifes sem a pressão de ter de ficar economizando ar, como nos mergulhos com equipamentos de circuito aberto. E todas aquelas histórias, como a de que os animais marinhos deixam você chegar mais perto, são verdadeiras. Na Black Forest um elegante tubarão bico-fino mergulha despreocupadamente entre o nosso grupo de dez mergulhadores, em vez de se assustar e bater em retirada. Em nosso mergulho final em Lighthouse Point vejo uma tartaruga gigante mastigando uma esponja. Ao sentir a minha presença, a cerca de 1m de distância, ela interrompe sua atividade, olha para cima e fita meus olhos. Estou tão perto que consigo contar as rugas em torno daqueles grandes olhos negros. Ficamos nessa observação mútua por alguns minutos antes da criatura voltar a degustar seu almoço, sem se preocupar em absoluto comigo. É nesse momento que me dou conta de que estou estragado para sempre para mergulhos com sistemas de circuito aberto.

Vantagens de possuir um rebreather


  1. A Mistura Perfeita
    A unidade monitora constantemente os níveis de oxigênio e nitrogênio no sistema, fornecendo a mistura mais segura para o mergulhador em qualquer profundidade.

  2. Dê um tempo
    Como a mistura fornecida para o mergulhador é otimizada, há menor absorção de nitrogênio, permitindo mergulhos de mais de duas horas, em profundidades típicas do uso recreativo. Mesmo assim, paradas descompressivas são necessárias.

  3. Conforto ao respirar
    Gás aquecido e umedecido pelo pulmão é reciclado no aparelho, ao contrário dos sistemas abertos, em que o mergulhador inala gás frio e seco, aumentando a fadiga.

  4. Silêncio
    Como não há gás escapando do sistema, não há geração de ruídos por bolhas. A probabilidade de se aproximar de seres marinhos mais assustadiços é enorme.

Desvantagens de possuir um rebreather


  1. Leia o manual
    CCRs são equipamentos sofisticados que requerem uma montagem cuidadosa, monitoramento consciente, manutenção exemplar e, quando apresentam falhas, conhecimento técnico é fundamental. Mergulhadores preguiçosos não devem nem tentar usar.

  2. Raridade
    Operadores de mergulho capazes de fornecer o elemento para absorção de CO2 e oxigênio puro são mais difíceis de encontrar. Nem todos os comandantes de barcos de mergulho aceitam levar equipamento CCR a bordo.

  3. Probabilidade
    Por serem complexos e dependerem de sensores de O2, equipamentos CCR são mais suscetíveis a falhas (mesmo contando com sistemas emergenciais), maiores do que os com sistemas de circuito aberto convencionais.

  4. Um por todos?
    Apesar de serem baseados nos mesmos princípios, cada modelo de CCR é diferente e tem suas peculiaridades, e requer treinamento específico.

  5. Escorpião no bolso?
    A maioria dos rebreathers custa de US$ 1.500 A US$ 4.000, ou seja, fazer parte dessa turma não é barato. Além disso, o custo do material para absorção de CO2 e do oxigênio para a operação também é elevado.

Como funciona um rebreather
A ideia por trás de um respirador de Circuito Fechado, ou rebreather (usamos um KISS clássico na ilustração), é que o gás circule em uma direção. Todos os rebreathers - de oxigênio, circuito semifechado ou fechado - absorvem em algum grau o CO2 exalado pelo usuário. Assim que exalado, o gás passa pela unidade de absorção de Co2 (A), também chamada de “scrubber”, retornando para o circuito. Depois que o CO2 é retirado, o que acontece depende do tipo de equipamento usado. Em geral, um “contrapulmão” (B) se expande e se contrai para acomodar o volume de gás compatível com o tamanho do pulmão do usuário. Uma válvula de alívio (C) retira gás em excesso e a válvula de regulagem (D) controla a adição de oxigênio, Nitrox ou Trimix ao circuito. Essas válvulas podem estar afixadas na unidade de absorção de Co2 ou no “contrapulmão”. E é assim que o equipamento repõe o oxigênio no circuito para ser utilizado pelo mergulhador. Os tanques de oxigênio puro (E) ou de gases misturados (F) injetam o gás a ser respirado no circuito. Em todos os equipamentos de circuito fechado, há um sensor para monitorar os níveis de oxigênio. Em equipamentos com controle eletrônico, um computador faz o ajuste do gás; nos mecânicos esse ajuste é feito por válvulas específicas para a função. Nesses modelos há a possibilidade de adicionar oxigênio manualmente (essa função também existe nos equipamentos eletrônicos).

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O que você precisa saber

Operadora
Localizada a apenas algumas braçadas da Famous North Wall, em Gran Cayman, a Divetech (divetech.com) oferece suporte completo para usuários de CCRs, desde material absorvente de Co2 até oxigênio puro, instrutores, aluguel de equipamento e consultoria sobre uma grande diversidade de modelos.

Quando mergulhar
Mergulhar na Gran Cayman é bom o ano todo. Porém, mergulhadores experientes preferem o tempo excepcional da primavera (do hemisfério norte) e de junho a outubro, quando há as melhores condições de visibilidade.

Condições dos mergulhos
A temperatura da água no verão fica em torno de 30 graus, baixando para cerca de 25 no inverno. Na maioria das vezes, a visibilidade passa dos 30 metros.

Preço
Focus Underwater (evento que ocorre sempre no final de agosto; focusgrandcayman.com). A reserva é completa e inclui estadia, refeições, seis saídas para mergulho embarcadas e ilimitadas saindo de terra, seminários sobre fotografia, competição fotográfica, absorvente de Co2 e gás ilimitados. A certificação para rebreather custa em torno de US$ 1.500,00.

Sites com mais informações sobre rebreathers
kissrebreathers.com; hollis.com; diverite.com.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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