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O relato de um fim de semana perfeito em Paraty

por Administrador
Postado em 13 de Setembro de 2017

O paraíso pode ter muitas visões, e certamente o recortado e deslumbrante litoral de Paraty é uma delas

O paraíso pode ter muitas visões, certamente o recortado e deslumbrante litoral de Paraty é uma delas. De tão próximo de grandes centros urbanos e já enraizado no imaginário popular, certas vezes nos esquecemos de tamanha beleza que se esconde neste pedaço de terra e inúmeras ilhas, bem na divisa entre os dois Estados mais ricos do País.

Paraty está a 250 km do Rio de Janeiro e 300 km de São Paulo, por isso mesmo é um destino perfeito para ser explorado em um final de semana. Sua localização lhe valeu grande destaque na época colonial, quando desfrutou de muita riqueza, devido a ter um dos principais portos para escoação de ouro e pedras preciosas vindas de Minas Gerais. Por outro lado, com a construção de um novo caminho, que dava direto na cidade do Rio de Janeiro, a cidade viveu um isolamento econômico, o que contribuiu para preservar sua rica natureza e história. Foi a partir dos anos 1970, com a abertura da Rodovia Rio-Santos, que Paraty ganhou fama internacional, atraindo turistas do mundo todo.

Em terra, é como viajar no tempo ao desfrutar do centro histórico, com seus casarões e igrejas que remontam à época colonial, considerados Patrimônio Histórico Nacional; e caminhar pelas ruas de pedras onde carros não circulam. Quem gosta de comer bem certamente vai parar em alguns dos bons restaurantes; festivais consagrados, como a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e o Festival Internacional de Fotografia, e emergentes como o Mimo, também são destaques da cidade.

Se fosse só por isso, já valeria a pena uma visita, mas uma experiência na região não é completa apenas com os pés em terra firme, você só conseguirá explorar para valer a bordo. São muitos lugares escondidos, pequenas praias, ilhas, “fiordes”, aonde só quem está embarcado consegue chegar. Isso sem falar nas opções de ancoragem famosas no mundo todo, como a Ilha da Cotia.

Não à toa, Paraty está no centro de uma das regiões que mais reúne embarcações no Brasil, do litoral norte paulista até Angra dos Reis. A estrutura náutica é bastante grande, com marinas, postos e serviços de charter de qualidade. Se o mar é por natureza um espaço democrático, aqui ele é mais ainda, com opções para todos os gostos e bolsos. Veja mais sobre como você pode explorar um final de semana pela região.

Navegando
Mas com tanta coisa para ver, por onde começar a viagem? Antes de mais nada, é bom abrir a carta náutica, seja em seu eletrônico, seja no bom e velho papel, e estudar a região. O mar de Paraty é super calmo, com águas abrigadas, tranquilas, ideais para passear com a família e crianças sem sustos; marear aqui é difícil. Mesmo assim, é importante estar sempre atento a estruturas como pedras submersas e respeitar as regras de navegação.

Logo na saída das marinas na Baía de Paraty, você já irá se deparar com algumas ilhas, como a Ilha da Bexiga, que pertence ao grande navegador Amyr Klink; a Ilha da Sapeca, do Malvão, dos Meros. Já na Ilha do Algodão, a maior da Baía de Paraty, você encontra uma unidade do famoso restaurante do Hiltinho, onde pode saborear deliciosos pratos à base de frutos do mar.

Existem também enseadas, como Jurumirim e do Engenho, onde há um bar, o que faz muitos barcos ancorarem por lá. Quem gosta de pescar não tem do que reclamar, os cobiçados robalos estão presentes, tornando o local um bom ponto de pescaria.

Quando o calor apertar e você decidir parar para dar um mergulho, uma boa pedida é a Praia Vemelha. Sua água límpida, em um tom verde-esmeralda, atrai muitas embarcações.

Continue navegando e chegue ao Saco da Velha, praia com pequena extensão de areia, que tradicionalmente é ponto de parada de embarcações. Somente pode ser acessada pelo mar, tem águas muito tranquilas, sem ondas, e a mata natural muito preservada. O local é uma boa pedida para almoçar; ali está o Bar e Restaurante Paixão do Vivinho, simples e tradicional, em funcionamento desde 1985, o que já o tornou ponto de referência. Tocado por uma família moradora do local, fica aberto dia e noite diretos no verão, inclusive entregando pedidos em barcos ancorados na região. Merecem destaque a moqueca de peixe, o bobó de camarão e as deliciosas caipirinhas e batidas; a de coco é para tomar de joelhos.

Saindo do Saco da Velha e continuando a navegar, você logo estará no Saco do Mamanguá, o “fiorde brasileiro”. A comparação com as formações naturais típicas da Escandinávia gera controvérsias, mas uma coisa é certa: o local é único, surpreendente e belo. Trata-se de um braço de mar que avança 8 km continente adentro, com dois de largura, emoldurado por montanhas cobertas de Mata Atlântica, com 33 praias e oito comunidades caiçaras. A fama do local é internacional, foi numa casa em suas margens que foi gravada uma das sequências da saga Crepúsculo, sucesso mundial de bilheteria nos cinemas.

Bem próxima ao Mamanguá está a Ilha da Cotia, o melhor ponto de ancoragem da região, talvez o melhor do Brasil. Totalmente abrigado, mesmo que entre um mau tempo, a sensação é de estar em terra firme, tamanha é a proteção. No verão, o local chega a receber centenas de barcos, mas sempre se encontra um espacinho. Ali é ponto ideal para dormir a bordo e acordar relaxado, pronto para mais um dia no paraíso.

Existem muitas outras opções de atividades na região, mas, como a ideia é aproveitar um final de semana, é melhor se concentrar em determinados pontos para aproveitar o máximo.

Serviços
Este roteiro pelo litoral de Paraty foi feito a bordo de uma embarcação da Wind Charter, empresa que há um ano começou a prestar esse serviço e tem sua base na cidade, com barcos na Marina do Engenho. Nossa equipe embarcou a bordo do novíssimo Lipari 41, catamarã do estaleiro francês Fountaine Pajot, operado pela empresa, e que exalava cheiro de barco novo.

O barco acomoda oito pessoas confortavelmente para pernoite em suas quatro cabines de casal e ainda há uma para skipper. Como é típico nesse tipo de embarcação, há muito espaço a bordo, são dois banheiros, um de cada lado; uma grande mesa no deck central, que estava equipado com geladeira, micro-ondas e outras amenidades. O melhor lugar para refeições, porém, é na praça de popa, onde você pode degustar a refeição com um visual incrível; já para aproveitar o sol, deitar -se no solário de rede na proa é imbatível.

Existem algumas opções ao contratar o serviço: você pode optar por sair sem tripulação, alternativa indicada para aqueles que possuem experiência de navegação. Já para quem não é profundo conhecedor, ou prefere não se preocupar com nada, há a opção de sair com um skipper, o comandante da embarcação, e uma hostess para cuidar da culinária. Caso opte por este serviço, você pode solicitar o desembarque da tripulação no período noturno, para ficar a sós com sua família e amigos.

Cabe ao cliente fazer suas compras para os dias a bordo, ou ele pode solicitar e a equipe da empresa, de acordo com as preferências, providencia. No caso de nossa equipe, coube ao skipper Beto, velejador experiente e morador da região, fazer todos os preparativos. Ele também preparou o saboroso jantar, três opções de massas, com diversos recheios e cuidou de toda a arrumação do barco.

Alguns devem estar pensando que esse é um tipo de serviço ainda inacessível, devido aos altos custos, mas a grande novidade é que não é. Você pode desfrutar de dias a bordo, explorando lugares acessíveis só de barco, longe da muvuca do continente, pagando preço de uma pousada em terra firme.

No caso do Lipari 41, o custo da diária sai por R$4500, valor que pode ser dividido por oito pessoas, mas há barcos menores com tarifas a partir de R$900. Conheça mais o serviço windcharter.com.br.

Oportunidades perdidas
Como você viu, fazer um charter é uma experiência extremamente agradável, porém, enquanto o mercado mundial avança, a falta de uma política pública impede o Brasil de se firmar em um negócio de bilhões.

Esse é um tipo de serviço já muito conhecido fora do Brasil, onde companhias como The Moorings e Sunsail prestam um serviço de excelência reconhecida em diversos destinos (veja mais na matéria “Na Onda do Charter”, na Mariner 07). Por incrível que pareça, mesmo com mais de sete mil km de costa, e diversos lugares paradisíacos para fazer frente a qualquer um no mundo,  como Paraty, no Brasil esse serviço ainda atinge uma pequena parcela de todo o seu potencial.

Segundo dados da EdmistonYachts, empresa britânica que atua na venda e aluguel de embarcações, na temporada 2012 os brasileiros ocuparam a terceira posição na demanda global por charter, atrás apenas dos americanos e russos. Outros números, da Camper & Nicholsons, companhia que atua no mercado náutico desde 1782, mostram que de 2009 a 2012 a frota global disponível para charter teve um crescimento de 19%, enquanto o valor potencial deste mercado aumentou 33% no mesmo período.

No Brasil não temos dados consolidados do setor, mas o que se ouve de gente ligada ao mercado é que os custos de impostos inviabilizam que empresas estrangeiras montem bases por aqui. É cobrado 1% sobre o valor da embarcação por mês, independente de possuir contratos ou não, o que afasta os superiates e magnatas estrangeiros de nossa costa.

A falta de uma política pública focada no desenvolvimento do turismo náutico é um grande desserviço à economia nacional, pois se perde a geração de grande quantidade de empregos em toda uma cadeia, perdem também os brasileiros, alijados de poderem usufruir dos encantos da navegação.

Iniciativas como da Wind Charter e de outras empresas devem ser aplaudidas e divulgadas para o bem do setor.

*Texto: Rafael Kassapian
*Fotos: Pepe Mélega

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